Estava prevista para setembro último a estréia do filme Capitães da Areia, mas não está anunciada ainda. O filme se baseia no livro homônimo de Jorge Amado, livro este que foi adotado como leitura obrigatória, em décadas passadas, em algumas escolas de São Paulo.
Escrito em 1937, Capitães da Areia coincide com a criação do ensino escolar obrigatório e, naturalmente, narra a vida e as desventuras de meninos em situação de rua na cidade de Salvador, Bahia, sob a liderança de Pedro Bala, triste, mas verdadeiro, herói mirim.
Setenta e três anos correspondem a três gerações. Em todo este tempo, o analfabetismo não foi erradicado no Brasil, o trabalho infantil não foi erradicado no Brasil, a pedofilia só recentemente foi denunciada e todas as iniciativas em prol do estabelecimento de dignidade e respeito com a infância foram e continuam sendo solapadas sistematicamente. Às vezes, pelo poder público (lembram dos CIEPS do Rio de Janeiro e dos CEUS de São Paulo?); às vezes pela própria população, que tem pela criança abandonada uma atitude não só de desprezo, mas de franca hostilidade.
É o que acontece na São Paulo de hoje. Desestabilizada por uma suposta ação de valorização imobiliária da região chamada “cracolândia”, sua população de rua espalhou-se pelo Centro da cidade, criando uma legião de adultos e crianças maltrapilhos, vagando sem destino e, como era de se esperar, assustando e assaltando moradores e transeuntes.
A atuação e as atividades das crianças nessa situação lembram muito as de Pedro Bala e seus amigos, só que eles não estão nas belas praias de Salvador, mas no duro e cinzento asfalto de São Paulo.
É impossível, em tempos de eleição, deixar de perceber que famílias de políticos se perpetuam no poder. Os pais e “padrinhos” preparam desde cedo os filhos e “afilhados” para o exercício da política, ensinando-lhes todos os truques, todos os recursos do vazio retórico, todas as artimanhas de que se valem os donos do poder para cuidar de si mesmos e nem lembrar para que foram eleitos.
Também os pais dos meninos de rua, sejam capitães da areia ou capitães do asfalto, se perpetuam no analfabetismo, na miséria, na violência, e assim, quando ainda têm casa, colocam os filhos para fora dela.
São duas linhas paralelas: a pobreza endêmica e a politicagem hereditária. É um triste paralelo. Mas, sem dúvida, uma relação de causa e efeito muito visível, muito clara.
Cumpram os engravatados senhores metade de suas obrigações de legisladores ou executivos, e as duas linhas começarão a se aproximar, deixando de ser paralelas e juntando-se numa só, na qual se poderá apor a denominação de CIDADANIA.
Este espaço se propõe principalmente a comentar as relações entre música e outras artes.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
SER OU NÃO SER ... ANALFABETO
A manobra que vem sendo empreendida contra o candidato eleito Tiririca, que visa questionar suas condições de exercer o mandato de deputado federal, já que ele seria “analfabeto”, é antiética e profundamente imoral.
Lembremos o ator e escritor Plínio Marcos, já falecido, que, invectivado por Pagu, que o chamou de analfabeto, respondeu: “Como se isso fosse privilégio neste país!”
Sou apenas Bacharel em Língua Portuguesa, e não Licenciada. Por isso, nunca lecionei, e sempre usei o conhecimento adquirido na Universidade para melhorar minha atividade de jornalista e de escritora. Mas em certa ocasião tive uma experiência que vale à pena narrar: nos anos 70, fui redatora de uma publicação chamada Enciclopédia dos Municípios. O editor desta enciclopédia era o Sr. Álvaro Abujamra, e a sede da editora era na Rua Adolfo Gordo, quase esquina com a Alameda Eduardo Prado.
O material que editávamos era fornecido pelas próprias Prefeituras, que preenchiam um questionário e mandavam fotos de suas cidades, no interior de São Paulo. Certos questionários eram preenchidos à mão, pois não só na Prefeitura como na cidade inteira, não havia uma só máquina de escrever... A caligrafia de muitos deles não diferia daquela da prova a que foi submetido o candidato eleito Tiririca. Eu encontrava entraves diários na leitura dos questionários, para fazer o texto final, tão deficiente era a maneira como estavam preenchidos. E já são mais de trinta anos que isso aconteceu!
Bem mais recente que minha experiência nessa Enciclopédia, a eleição de Baratão para Vereador,em São Paulo, demonstrou que prova de escolaridade nunca foi exigência.
Tiririca incomodou porque obteve uma vitória esmagadora. Mas se era essencial apresentar um diploma, isto devia ter sido solicitado antes. A propósito, em que letra constitucional ou jurídica se baseia a alegação dos que o condenam, mas que, antes dele, nunca questionaram nenhum outro candidato? E tem mais: se Tiririca for “cassado”, a corja que ele carrega com seus votos deve ser igualmente defenestrada!
A obrigatoriedade da alfabetização no Brasil vem da 7ª. Constituição, de 1937. Nestes 73 anos, pouco se fez para que essa fosse uma alfabetização efetiva, “de verdade”... ou não teríamos um contingente de alfabetizados cuja precariedade é visível.
Um exemplo da intenção de manutenção dessa precariedade vem da “aprovação obrigatória”, criada pelo PSDB, na rede pública do Estado de São Paulo. Os alunos aprovados sem condições, através dessa cínica situação, verdadeira falsidade ideológica, é que deveriam ser submetidos a testes. Para avaliar a profundidade do dano que isto certamente causou a seu futuro.
Lembremos o ator e escritor Plínio Marcos, já falecido, que, invectivado por Pagu, que o chamou de analfabeto, respondeu: “Como se isso fosse privilégio neste país!”
Sou apenas Bacharel em Língua Portuguesa, e não Licenciada. Por isso, nunca lecionei, e sempre usei o conhecimento adquirido na Universidade para melhorar minha atividade de jornalista e de escritora. Mas em certa ocasião tive uma experiência que vale à pena narrar: nos anos 70, fui redatora de uma publicação chamada Enciclopédia dos Municípios. O editor desta enciclopédia era o Sr. Álvaro Abujamra, e a sede da editora era na Rua Adolfo Gordo, quase esquina com a Alameda Eduardo Prado.
O material que editávamos era fornecido pelas próprias Prefeituras, que preenchiam um questionário e mandavam fotos de suas cidades, no interior de São Paulo. Certos questionários eram preenchidos à mão, pois não só na Prefeitura como na cidade inteira, não havia uma só máquina de escrever... A caligrafia de muitos deles não diferia daquela da prova a que foi submetido o candidato eleito Tiririca. Eu encontrava entraves diários na leitura dos questionários, para fazer o texto final, tão deficiente era a maneira como estavam preenchidos. E já são mais de trinta anos que isso aconteceu!
Bem mais recente que minha experiência nessa Enciclopédia, a eleição de Baratão para Vereador,em São Paulo, demonstrou que prova de escolaridade nunca foi exigência.
Tiririca incomodou porque obteve uma vitória esmagadora. Mas se era essencial apresentar um diploma, isto devia ter sido solicitado antes. A propósito, em que letra constitucional ou jurídica se baseia a alegação dos que o condenam, mas que, antes dele, nunca questionaram nenhum outro candidato? E tem mais: se Tiririca for “cassado”, a corja que ele carrega com seus votos deve ser igualmente defenestrada!
A obrigatoriedade da alfabetização no Brasil vem da 7ª. Constituição, de 1937. Nestes 73 anos, pouco se fez para que essa fosse uma alfabetização efetiva, “de verdade”... ou não teríamos um contingente de alfabetizados cuja precariedade é visível.
Um exemplo da intenção de manutenção dessa precariedade vem da “aprovação obrigatória”, criada pelo PSDB, na rede pública do Estado de São Paulo. Os alunos aprovados sem condições, através dessa cínica situação, verdadeira falsidade ideológica, é que deveriam ser submetidos a testes. Para avaliar a profundidade do dano que isto certamente causou a seu futuro.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
BOATEIROS, HERDEIROS DE IAGO
Não é uma profissão, mas é um exercício quase profissional em sua constância, coerência e oportunismo. Afinal, quem é um “boateiro”? Graças a Deus, não conheço nenhum pessoalmente, mas pela pegada se conhece o gigante – ou no caso, se conhece o pobre e mesquinho boateiro. Aquele, na falta de dados concretos, na falta de capacidade de análise dos fatos, no desejo doentio de fazer prevalecer sua opinião ou até, como às vezes parece, por pura inveja do sucesso alheio, observa bem a sombra de seu alvo e, incapaz de lutar com armas limpas, cria uma inverdade sobre ele.
O Boateiro, esse tipo desprezível, sabe como inventar uma história que soe plausível aos que, como ele, têm pouca capacidade de análise dos fatos. Sorrateiro, ele sabe a hora certa de soltar a mentirinha, de apenas sugerir, de dar a entender que tem acesso a fontes fidedignas e sobretudo ele sabe a quem soltar seu boato, como quem solta um balão em céu de brigadeiro.
Para quem não conhece ópera, cabe um esclarecimento: Iago é um personagem de Shakespeare, na peça Otelo, que se tornou mais conhecida depois de ser musicada e colocada em cena com música de G. Verdi. Ele cria a suspeita de traição da esposa de Otelo, Desdêmona, rodeando essa suspeita de pequenos detalhes que fazem-na parecer verdade, inclusive o lenço, que seria uma prova cabal mas que é apenas o elemento físico de sua intriga.
Na política brasileira, os Iagos têm caixa e caixas de lenços com o mesmo boato, que distribuem de tempos em tempos, sem originalidade e absolutamente sem fundamento: o de que este ou aquele político ou candidato é comunista.
Como nossa população é em geral ingênua e quase sempre despreparada, o lenço, digo, o boato, cai direitinho. A última vítima é Dilma Rousseff, que aliás tem trajetória idêntica à de Serra, em termos de ideologia juvenil. Até onde sabemos, ela ficou no Brasil, enquanto o candidato oponente fugiu para o Chile, onde Salvador Allende tentava seguir as pegadas de Fidel Castro em Cuba.
Tudo isso aconteceu há muito tempo, e mesmo assim as pessoas não somam dois com dois para perceber algumas coisas que caracterizam o Comunismo. Vamos recapitular: o primeiro regime comunista constituído apareceu na Rússia, em um momento que não se parece em nada com os dias de hoje; era o fim da 1ª. Guerra Mundial. O segundo apareceu na China, em 1947; isto é, no fim da 2ª. Guerra Mundial. Os outros dois são Cuba, o mais duradouro, agora se esvaindo como uma pedra de gelo, e finalmente o do Chile, para onde foi o candidato Serra.
Nos dois primeiros países citados, devido à guerra, havia um exército organizado. E é isso que caracteriza o surgimento de um estado assim – talvez não do ponto de vista sociológico, mas em uma análise de seus aspectos exteriores. O regime comunista, como o nazismo e o fascismo, se baseiam em um exército que, se não é forte de verdade, pelo menos assim se exibe (ver o detalhe da exterioridade). Em documentários sobre o fascismo, o nazismo e o comunismo, vemos sempre desfiles e ditadores uniformizados, que se parecem tanto que, se não fossem os símbolos facho, suástica e foice-e-martelo, não poderíamos distinguir quem são eles. Os chineses escapam da mesmice por suas feições orientais, mas seu aparato visível é muito igual ao dos outros.
BOATEIROS DE PLANTÃO, respondam seu pestanejar: vocês acham que a Dilma tem cara de quem vai comandar um exército? SEGUIDORES DE BOATEIROS: vocês acham que, em tempos de plena paz (pelo menos entre nós), de tanto samba, com previsão de Copa do Mundo em fins do mandato, ela vai chegar e declarar uma mudança de regime? IAGOS DE PLANTÃO: mudem o refrão, que este não está afinado.
Ou melhor: disfarcem e saiam de fininho. Vocês não estão agradando!
O Boateiro, esse tipo desprezível, sabe como inventar uma história que soe plausível aos que, como ele, têm pouca capacidade de análise dos fatos. Sorrateiro, ele sabe a hora certa de soltar a mentirinha, de apenas sugerir, de dar a entender que tem acesso a fontes fidedignas e sobretudo ele sabe a quem soltar seu boato, como quem solta um balão em céu de brigadeiro.
Para quem não conhece ópera, cabe um esclarecimento: Iago é um personagem de Shakespeare, na peça Otelo, que se tornou mais conhecida depois de ser musicada e colocada em cena com música de G. Verdi. Ele cria a suspeita de traição da esposa de Otelo, Desdêmona, rodeando essa suspeita de pequenos detalhes que fazem-na parecer verdade, inclusive o lenço, que seria uma prova cabal mas que é apenas o elemento físico de sua intriga.
Na política brasileira, os Iagos têm caixa e caixas de lenços com o mesmo boato, que distribuem de tempos em tempos, sem originalidade e absolutamente sem fundamento: o de que este ou aquele político ou candidato é comunista.
Como nossa população é em geral ingênua e quase sempre despreparada, o lenço, digo, o boato, cai direitinho. A última vítima é Dilma Rousseff, que aliás tem trajetória idêntica à de Serra, em termos de ideologia juvenil. Até onde sabemos, ela ficou no Brasil, enquanto o candidato oponente fugiu para o Chile, onde Salvador Allende tentava seguir as pegadas de Fidel Castro em Cuba.
Tudo isso aconteceu há muito tempo, e mesmo assim as pessoas não somam dois com dois para perceber algumas coisas que caracterizam o Comunismo. Vamos recapitular: o primeiro regime comunista constituído apareceu na Rússia, em um momento que não se parece em nada com os dias de hoje; era o fim da 1ª. Guerra Mundial. O segundo apareceu na China, em 1947; isto é, no fim da 2ª. Guerra Mundial. Os outros dois são Cuba, o mais duradouro, agora se esvaindo como uma pedra de gelo, e finalmente o do Chile, para onde foi o candidato Serra.
Nos dois primeiros países citados, devido à guerra, havia um exército organizado. E é isso que caracteriza o surgimento de um estado assim – talvez não do ponto de vista sociológico, mas em uma análise de seus aspectos exteriores. O regime comunista, como o nazismo e o fascismo, se baseiam em um exército que, se não é forte de verdade, pelo menos assim se exibe (ver o detalhe da exterioridade). Em documentários sobre o fascismo, o nazismo e o comunismo, vemos sempre desfiles e ditadores uniformizados, que se parecem tanto que, se não fossem os símbolos facho, suástica e foice-e-martelo, não poderíamos distinguir quem são eles. Os chineses escapam da mesmice por suas feições orientais, mas seu aparato visível é muito igual ao dos outros.
BOATEIROS DE PLANTÃO, respondam seu pestanejar: vocês acham que a Dilma tem cara de quem vai comandar um exército? SEGUIDORES DE BOATEIROS: vocês acham que, em tempos de plena paz (pelo menos entre nós), de tanto samba, com previsão de Copa do Mundo em fins do mandato, ela vai chegar e declarar uma mudança de regime? IAGOS DE PLANTÃO: mudem o refrão, que este não está afinado.
Ou melhor: disfarcem e saiam de fininho. Vocês não estão agradando!
domingo, 3 de outubro de 2010
ISAÍAS SÁVIO E O VIOLÃO NO BRASIL
O violão chegou ao Brasil através dos portugueses, povo de plangentes guitarras. Por muitos e muitos anos, foi o único som musical a se misturar aos sons da floresta, ou ao som dos trabalhadores, ou ao som das lides do dia a dia, nas modestas casas brasileiras. Instrumento sobretudo popular, tão amado pelo povo, o violão foi, durante muito tempo, discriminado nos salões da aristocracia e da burguesia.
Em 1914, a Primeira Dama do país, Nair de Teffé, esposa do Marechal Hermes da Fonseca, resolveu chocar a sociedade carioca. Que fez ela? Escolheu justamente o violão, esse instrumento tão discriminado, para tocar a peça Corta Jaca, de Chiquinha Gonzaga. A imprensa foi veemente, quase demoliu o Catete! Afinal, não ficava bem a uma senhora de alta categoria social tocar violão, instrumento considerado de vadios e desocupados.
De 1914 para cá, muita água passou por baixo da ponte. O Brasil teve Canhoto, João Pernambuco, Garoto e muitos outros, que se consagraram como grandes intérpretes e grandes compositores de peças violonísticas imortais. Até mesmo Heitor Villa-Lobos, reconhecido internacionalmente, dedicou-se ao violão e criou lindas peças para este instrumento, inclusive os Choros.
CONSAGRANDO O VIOLÃO
Mas, se hoje, este belo e expressivo instrumento conta com a dignidade de uma oficialização, através dos cursos de Conservatórios e de Faculdades, muito disso se deve à figura simpática e competente de Isaías Sávio.
Nascido em Montevidéu no dia 1º. de outubro de 1900, Isaías Sávio revelou-se musicalmente dotado desde cedo, mas só escolheu o violão depois de passar um pouco pelo piano e de fazer estudos teóricos. Tendo encontrado sua verdadeira vocação, a ela se dedicou com afinco, e em breve colheu belos frutos. Em 1912, ainda garoto, compôs Caixinha de Música, até hoje uma das peças de maior sucesso entre os violonistas. Aos quinze anos, estreou como concertista em sua cidade natal. Mais tarde, foi para a Argentina, onde se aperfeiçoou com Miguel Llobet, famoso guitarrista espanhol. De Buenos Aires, onde viveu de 1924 a 1930, veio para o Brasil, terra que o acolheu em um momento muito propício, pois os princípios nacionalistas começavam a dar frutos; assim sendo, o instrumento de legítima preferência do povo brasileiro começava a ser aceito também pela sociedade. Isaías estreou em Porto Alegre em 1931, residiu uns tempos no Rio de Janeiro e de lá veio para São Paulo, onde viveu até falecer, em 1977.
A CONTRIBUIÇÃO DIDÁTICA
De sólida formação erudita, Isaías Sávio não só formou grandes concertistas como também artistas que se dedicaram à música popular. Mas sua grande contribuição para a aceitação plena e para o desenvolvimento do estudo do violão no Brasil foi dada no ano de 1947, quando apresentou ao Diretor do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, Dr. Carlos A. Gomes Cardim Filho, a proposta da criação da cadeira deste instrumento. Com grande simplicidade, o Mestre observava, entre outras coisas, que ”la guitarra se ha elevado al nivel de los demás instrumentos solistas. Porque hoy posué una literatura propia, digna del mayor interes y estúdio, como tambiém una historia evolutiva juntamente com los demás instrumentos de cuerda”.
A semente estava plantada. E, no ano de 1948, a imprensa paulista noticiava, com grande ênfase, que se realizara em São Paulo a formatura da primeira turma de violão, sendo a primeira graduanda a Sra. Julieta Correa Antunes.
A HERANÇA DE SÁVIO
Em 1963, Isaías Sávio naturalizou-se brasileiro. Em 1965, com grandes festas, comemorou seu Jubileu de Ouro. Participando do Programa comemorativo, nomes que hoje brilham e fazem brilhar o violão: Paulinho Nogueira, Antonio Carlos Guedes Barbosa, Henrique Pinto...Cada qual tem sua técnica, seu modo particular de tocar e ensinar o violão, sua maneira característica de se expressar musicalmente. Mas seu ponto de confluência é o respeito comum ao grande Mestre Isaías Sávio, de quem são herdeiros e continuadores.
(Publicado no jornal NOTAS RICORDI, Informativo de Música, ano I nr 3, Dez 93/Fev 94, P. 1)
Em 1914, a Primeira Dama do país, Nair de Teffé, esposa do Marechal Hermes da Fonseca, resolveu chocar a sociedade carioca. Que fez ela? Escolheu justamente o violão, esse instrumento tão discriminado, para tocar a peça Corta Jaca, de Chiquinha Gonzaga. A imprensa foi veemente, quase demoliu o Catete! Afinal, não ficava bem a uma senhora de alta categoria social tocar violão, instrumento considerado de vadios e desocupados.
De 1914 para cá, muita água passou por baixo da ponte. O Brasil teve Canhoto, João Pernambuco, Garoto e muitos outros, que se consagraram como grandes intérpretes e grandes compositores de peças violonísticas imortais. Até mesmo Heitor Villa-Lobos, reconhecido internacionalmente, dedicou-se ao violão e criou lindas peças para este instrumento, inclusive os Choros.
CONSAGRANDO O VIOLÃO
Mas, se hoje, este belo e expressivo instrumento conta com a dignidade de uma oficialização, através dos cursos de Conservatórios e de Faculdades, muito disso se deve à figura simpática e competente de Isaías Sávio.
Nascido em Montevidéu no dia 1º. de outubro de 1900, Isaías Sávio revelou-se musicalmente dotado desde cedo, mas só escolheu o violão depois de passar um pouco pelo piano e de fazer estudos teóricos. Tendo encontrado sua verdadeira vocação, a ela se dedicou com afinco, e em breve colheu belos frutos. Em 1912, ainda garoto, compôs Caixinha de Música, até hoje uma das peças de maior sucesso entre os violonistas. Aos quinze anos, estreou como concertista em sua cidade natal. Mais tarde, foi para a Argentina, onde se aperfeiçoou com Miguel Llobet, famoso guitarrista espanhol. De Buenos Aires, onde viveu de 1924 a 1930, veio para o Brasil, terra que o acolheu em um momento muito propício, pois os princípios nacionalistas começavam a dar frutos; assim sendo, o instrumento de legítima preferência do povo brasileiro começava a ser aceito também pela sociedade. Isaías estreou em Porto Alegre em 1931, residiu uns tempos no Rio de Janeiro e de lá veio para São Paulo, onde viveu até falecer, em 1977.
A CONTRIBUIÇÃO DIDÁTICA
De sólida formação erudita, Isaías Sávio não só formou grandes concertistas como também artistas que se dedicaram à música popular. Mas sua grande contribuição para a aceitação plena e para o desenvolvimento do estudo do violão no Brasil foi dada no ano de 1947, quando apresentou ao Diretor do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, Dr. Carlos A. Gomes Cardim Filho, a proposta da criação da cadeira deste instrumento. Com grande simplicidade, o Mestre observava, entre outras coisas, que ”la guitarra se ha elevado al nivel de los demás instrumentos solistas. Porque hoy posué una literatura propia, digna del mayor interes y estúdio, como tambiém una historia evolutiva juntamente com los demás instrumentos de cuerda”.
A semente estava plantada. E, no ano de 1948, a imprensa paulista noticiava, com grande ênfase, que se realizara em São Paulo a formatura da primeira turma de violão, sendo a primeira graduanda a Sra. Julieta Correa Antunes.
A HERANÇA DE SÁVIO
Em 1963, Isaías Sávio naturalizou-se brasileiro. Em 1965, com grandes festas, comemorou seu Jubileu de Ouro. Participando do Programa comemorativo, nomes que hoje brilham e fazem brilhar o violão: Paulinho Nogueira, Antonio Carlos Guedes Barbosa, Henrique Pinto...Cada qual tem sua técnica, seu modo particular de tocar e ensinar o violão, sua maneira característica de se expressar musicalmente. Mas seu ponto de confluência é o respeito comum ao grande Mestre Isaías Sávio, de quem são herdeiros e continuadores.
(Publicado no jornal NOTAS RICORDI, Informativo de Música, ano I nr 3, Dez 93/Fev 94, P. 1)
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
CENTENÁRIO DE AMADEU S. BLOIS
Se estivesse vivo, “Seu” Amadeu, nome muito conhecido entre os músicos e estudantes de música até os anos 90, teria completado cem anos neste dia 12 de Setembro. Para não esquecer quem ajudou e orientou profissionais e alunos durante tantos anos, publicamos aqui as palavras com que o jornal NOTAS RICORDI falou dele com tanto carinho, um ano depois de seu falecimento.
“Nascido em 12 de setembro de 1910, no bairro do Brás, Amadeu Salvador Blois começou a trabalhar com músicas na Casa Sotero, na Rua Direita, quando tinha cerca de 12 anos.Aprendeu o essencial sobre partituras musicais com um funcionário da casa, Henrique Nicolino, já falecido. Estudou violino, instrumento de cuja literatura musical tinha um vasto conhecimento. Em 1942 foi procurado pelos Irmãos Vitale, para exercer o cargo de gerente da Casa Bevilacqua. Exerceu esse cargo até 1950, e a partir de então trabalhou na Casa Vitale, Rua Quintino Bocaiúva, 234, até que a casa encerrou suas atividades, em 1970.
Nessa ocasião, o Sr. Amadeu realizou seu sonho: abrir sua própria loja de músicas. Surgiu então, em sociedade com o Sr. Enrique Lebendiger, a CASA AMADEUS, situada à R. Conselheiro Crispiniano, 105. Nesta loja ele continuou trabalhando no que sempre gostou: a MÚSICA. Dono de memória fotográfica, conhecia tudo sobre seu metiê, e atendia a quem o solicitasse sempre com grande simpatia e boa vontade. Falecido em 15.06.1992, Amadeu Blois deixou uma lacuna que dificilmente será preenchida, pois, ao longo de cerca de 70 anos de atividades ininterruptas, acumulou conhecimento sobre a história viva da música em São Paulo, conhecimento este que tinha grande prazer em comunicar”.
“Nascido em 12 de setembro de 1910, no bairro do Brás, Amadeu Salvador Blois começou a trabalhar com músicas na Casa Sotero, na Rua Direita, quando tinha cerca de 12 anos.Aprendeu o essencial sobre partituras musicais com um funcionário da casa, Henrique Nicolino, já falecido. Estudou violino, instrumento de cuja literatura musical tinha um vasto conhecimento. Em 1942 foi procurado pelos Irmãos Vitale, para exercer o cargo de gerente da Casa Bevilacqua. Exerceu esse cargo até 1950, e a partir de então trabalhou na Casa Vitale, Rua Quintino Bocaiúva, 234, até que a casa encerrou suas atividades, em 1970.
Nessa ocasião, o Sr. Amadeu realizou seu sonho: abrir sua própria loja de músicas. Surgiu então, em sociedade com o Sr. Enrique Lebendiger, a CASA AMADEUS, situada à R. Conselheiro Crispiniano, 105. Nesta loja ele continuou trabalhando no que sempre gostou: a MÚSICA. Dono de memória fotográfica, conhecia tudo sobre seu metiê, e atendia a quem o solicitasse sempre com grande simpatia e boa vontade. Falecido em 15.06.1992, Amadeu Blois deixou uma lacuna que dificilmente será preenchida, pois, ao longo de cerca de 70 anos de atividades ininterruptas, acumulou conhecimento sobre a história viva da música em São Paulo, conhecimento este que tinha grande prazer em comunicar”.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
FREDERIC CHOPIN
Para homenagear o grande compositor Frederic Chopin em seus 200 anos de nascimento que transcorrem este ano, faremos paralelo entre ele e obras literárias que o representam, ou à sua música.
São de nossa especial predileção dois grandes poetas da Língua Portuguesa, o brasileiro Alceu Wamosy (1895-1923) e a portuguesa Florbela Espanca (1896-1930).
CHOPIN
Não se acende hoje a luz...Todo o luar
Fique lá fora. Bem aparecidas
As estrela miudinhas, dando no ar
As voltas de um cordão de margaridas!
Entram falenas meio entontecidas...
Lusco-fusco... um morcego a palpitar
Passa... torna a passar... torna a passar...
As coisas têm o ar de adormecidas...
Mansinho... Roça os dedos plo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!
E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira
Vem para mim na escuridão da sala...
Chopin é um romântico de primeira hora, e Florbela se coloca no romantismo tardio.Entretanto, guardadas as devidas e necessárias proporções que há necessariamente entre um músico e um poeta, há diversos pontos de contato entre as obras de ambos. Por exemplo, no plano pessoal, o desespero de um e de outro, fato relatado pelos contemporâneos de ambos.
Felix Mendelssohn, contemporâneo de Chopin e seu amigo pessoal, dizia que o polonês sofria “ da mania parisiense de parecer desesperado”. O crítico brasileiro Antonio Rangel Bandeira acrescentou: “Chopin era um desesperado que sofria da mania parisiense de parecer desesperado”.
De Florbela Espanca, Jorge de Sena e, através dele, José Régio, que prefacia a edição dos sonetos utilizados neste trabalho (ver Bibliografia), não usam a palavra “desespero”, mas cumulam os comentários críticos de qualificativos que muito se aproximam da ideia de desespero: depressão/exaltação (bipolaridade ?); hermafroditismo psicológico; voluptuosidade; insaciabilidade; inquietação, insatisfação irremediáveis; ansiedade. Em suma, estados de espírito distantes da serenidade. E que são indícios, sem dúvida, de sofrimento profundo, como o desespero.
O que Florbela articula em versos é a visão do Chopin das baladas, dos scherzos – amargas brincadeiras musicais -, da tristeza e da desesperança, e não o Chopin heróico das polonesas e alguns estudos. Em versos, ela traz a mesma visão “lusco-fusco” – claro e escuro, luz e sombra... Os seres noctívagos – falenas, morcego – aquelas “entontecidas”, este que “a palpitar/passa, torna a passar, torna a passar” e as coisas que têm o “ar de adormecidas”, evocam sobretudo os noturnos. O que Chopin exprime em música, através da alternância forte/piano, lento/rápido. Contrastes, em suma. Como no retrato que Eugene Delacroix fez do compositor e que é a imagem mais dele divulgada.
Já “as estrelas miudinhas dando no ar/ as voltas de um cordão de margaridas” remetem à circularidade, à reiteração de temas e desenhos musicais, tão presentes nas obras do romantismo, sobretudo de Chopin, cujo exemplo mais reconhecível é a famosa Valsa do Minuto (Valsa op. 64 nr 1), ou o menos conhecido Improviso op. 29 em lá bemol maior.
Nos dois tercetos, Florbela remete diretamente ao intérprete, que “mansinho, roça os dedos plo teclado”, e que é “alma, sacrário de almas”, além de ser o “meu amado”. O mais interessante é ser o intérprete quem traz, através de sua interpretação, a “divina, triste, grande sombra loira” que vem para a poetisa, isto é, a ouvinte do pianista, “na escuridão da sala”. Dessa linda e delicada maneira ela coloca o intérprete como um repositório sagrado de outras almas. E, em verdade, é a conjugação das almas de criador e intérprete que permite manter viva, hoje, a música de ontem, e amanhã manterá viva a música de hoje...
Mas o fato mais raro é uma outra forma de expressão, como a poesia, interpretar tão bem a realidade abstrata da música. E esta é, sobretudo, uma prova de grandeza: o grande músico Frederic Chopin é visto por uma grande poetisa nos aspectos em que ambos, cada qual em sua arte, se aproximam: o romantismo exacerbado, os contrastes, e a profunda e angustiante tristeza que os consumiu e os levou deste mundo relativamente jovens: ele, com 39 anos, ela com 36.
CHOPIN E ALCEU WAMOSY
Tua pálida mão, cheia de alma,
Sonha sobre a brancura do teclado,
Como um lírio de sons que a lua ensalma
De um mistério suavíssimo e sagrado.
Uma virgem de luto, olhos em calma,
Postas as mãos de luz reza ao teu lado,
E o seu gesto alvoral como uma palma,
Unge-te o vulto, místico, encantado...
Os acordes, tombando mansamente,
Tecem telas de bruma e agonia
Dentro do coração de quem os sente.
E, sob a tua mão, triste, soturno,
O piano vai gemendo, ao fim do dia,
Toda a humana amargura de um Noturno.
Também ele evoca o teclado, em sua brancura de lírio, e evoca o sagrado, a lua, o suavíssimo mistério. A figura da virgem de luto é original, em sua aceitação da morte (olhos em calma), com o contraste do luto e as mãos de luz (escuro/claro). O gesto dela, como uma palma (flor de velório), unge - outra vez o religioso, o sagrado – o vulto “místico, encantado”, isto é, alguém fora do mundo real.
O elemento musical propriamente dito, os acordes, “tombam” mansamente, idéia de queda, de algo que passa – o que realmente é a música, que passa no tempo – e, nessa passagem, “tecem” coisas tão leves como as “teias de bruma e agonia”. O ouvinte é expresso em seu âmago – o coração – e o verbo é “sentir”, de duplo significado, aqui, pois sentir é ouvir, em italiano, e ter sensação, em português.
Muito sutilmente, fecha-se a circularidade do poema quando, no último terceto, retoma a “mão”, que abre o soneto. Admissão tácita da qualidade essencialmente pianística da obra do músico que o poeta celebra, e que referenda a seguir, pois “o piano vai gemendo”, e se congraça com o poema de Florbela ao citar “ao fim do dia”, tal como ela evoca o lusco-fusco.
E seu final cita a forma musical que é implícita em ambos os poemas: o Noturno.
Interessante que se veja, nos dois poetas, o contraste luz/sombra, dia/noite, claro/escuro, pois em última análise este é consenso para vida (luz)/morte (escuridão).
Mas enquanto Florbela se situa ao lado do desespero, Wamosy se inclina para a tristeza. E é essa a dedicatória que faz de toda a segunda parte de seu livro, para alguém que não conheceu, que viveu em outro país, em outro continente, em outro mundo, enfim... mas com o qual se identifica na tristeza e talvez na música que ele não faz, a não ser em versos.
Dizem os biógrafos de Alceu Wamosy, Mansueto Bernardi e Till Rodrigues, que ele se emocionava tanto com os Noturnos de Chopin que chorava ao ouvi-los. Não é, pois, estranho que o poeta finalize seu poema evocando esta forma musical, da qual o pianista polonês é mestre e paradigma. A presença da noite é constante em sua obra poética, e no mesmo livro em que aparece o soneto Chopin, é publicado também um poema longo denominado Noturno. Além disso, em sua obra Alceu faz inúmeras citações de outros poetas, músicos e formas musicais.
Há um ponto em que Chopin e Wamosy se mostram irmanados: na duplicidade do caráter de suas obras. Ambos são muito mais conhecidos e louvados por lado lírico, mas apresentam um reverso heróico, politizado.
Um dos grandes sofrimentos de Chopin era ver sua pátria, a Polônia, sempre espoliada. Chamar a atenção sobre ela através de suas polonesas é uma nobre forma de erguer uma bandeira, a mais bela batalha – a do espírito.
A atividade política de Wamosy não se dá através da forma artística da poesia, mas de sua combativa ação jornalística. Acreditava tanto em seus ideais políticos que foi para a frente de batalha, como um soldado.No Rio Grande do Sul, um estado sempre ativo e politizado, durante a primeira República, ele se postou em defesa do Presidente de Província A. A. Borges de Medeiros, cujo governo estava sendo questionado por revolucionários, os Libertadores, chefiados por J. F. de Assis Brasil. E Alceu Wamosy foi ferido em combate, em 1923, na batalha de Poncho Verde, pelos adversários do governador, vindo a falecer no hospital de Santana do Livramento. Tinha apenas 28 anos e deixou uma pequena, mas significativa, obra poética de cunho simbolista, que hoje consta nas principais antologias da Língua Portuguesa.
CHOPIN E NIETSZCHE, NA VISÃO DE GUY DE POURTALÉS
O biógrafo mais conhecido de Chopin, Guy de Pourtalés, escreve uma linda página sobre o Noturno em dó menor op. 48 e transcreve um trecho do filósofo alemão F. Nietszche, comparando ambos, compositor e escritor, através de suas obras. Dessa forma: “Quando ouço o Noturno em dó menor (op. 48) onde, através de tanto sofrimento contido, esplende, contudo, misturado com a desgraça, este ideal, que não se constrói senão sobre as alegrias criadoras do espírito, penso numa página escrita por Nietszche (...). É este belo Canto da Noite, onde passam as visões negras e azuis de Chopin, seu olhar de flor, seus olhos de menina, e seu coração tão “extremamente, incrivelmente velho”. Alguns fragmentos destas estrofes me parecem fornecer ao Noturno de que falo - e à solidão final em que agora o Poeta vai entrar – um comentário digno deles.
O canto da noite
É noite: eis que se ergue mais alta a voz das fonte marulhantes.
E minha alma é também uma fonte marulhante.
É noite: eis que se elevam todas as canções de todos os amantes.
E minha alma é também uma canção de amante.
Há em mim algo de inquieto e intranquilizável que quer elevar a voz.
Há em mim um desejo de amor que fala, ele próprio, a linguagem do amor.
Sou luz: ah! se eu fosse noite! Minha solidão, porém, está em ser envolvido de luz.
São de nossa especial predileção dois grandes poetas da Língua Portuguesa, o brasileiro Alceu Wamosy (1895-1923) e a portuguesa Florbela Espanca (1896-1930).
CHOPIN
Não se acende hoje a luz...Todo o luar
Fique lá fora. Bem aparecidas
As estrela miudinhas, dando no ar
As voltas de um cordão de margaridas!
Entram falenas meio entontecidas...
Lusco-fusco... um morcego a palpitar
Passa... torna a passar... torna a passar...
As coisas têm o ar de adormecidas...
Mansinho... Roça os dedos plo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!
E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira
Vem para mim na escuridão da sala...
Chopin é um romântico de primeira hora, e Florbela se coloca no romantismo tardio.Entretanto, guardadas as devidas e necessárias proporções que há necessariamente entre um músico e um poeta, há diversos pontos de contato entre as obras de ambos. Por exemplo, no plano pessoal, o desespero de um e de outro, fato relatado pelos contemporâneos de ambos.
Felix Mendelssohn, contemporâneo de Chopin e seu amigo pessoal, dizia que o polonês sofria “ da mania parisiense de parecer desesperado”. O crítico brasileiro Antonio Rangel Bandeira acrescentou: “Chopin era um desesperado que sofria da mania parisiense de parecer desesperado”.
De Florbela Espanca, Jorge de Sena e, através dele, José Régio, que prefacia a edição dos sonetos utilizados neste trabalho (ver Bibliografia), não usam a palavra “desespero”, mas cumulam os comentários críticos de qualificativos que muito se aproximam da ideia de desespero: depressão/exaltação (bipolaridade ?); hermafroditismo psicológico; voluptuosidade; insaciabilidade; inquietação, insatisfação irremediáveis; ansiedade. Em suma, estados de espírito distantes da serenidade. E que são indícios, sem dúvida, de sofrimento profundo, como o desespero.
O que Florbela articula em versos é a visão do Chopin das baladas, dos scherzos – amargas brincadeiras musicais -, da tristeza e da desesperança, e não o Chopin heróico das polonesas e alguns estudos. Em versos, ela traz a mesma visão “lusco-fusco” – claro e escuro, luz e sombra... Os seres noctívagos – falenas, morcego – aquelas “entontecidas”, este que “a palpitar/passa, torna a passar, torna a passar” e as coisas que têm o “ar de adormecidas”, evocam sobretudo os noturnos. O que Chopin exprime em música, através da alternância forte/piano, lento/rápido. Contrastes, em suma. Como no retrato que Eugene Delacroix fez do compositor e que é a imagem mais dele divulgada.
Já “as estrelas miudinhas dando no ar/ as voltas de um cordão de margaridas” remetem à circularidade, à reiteração de temas e desenhos musicais, tão presentes nas obras do romantismo, sobretudo de Chopin, cujo exemplo mais reconhecível é a famosa Valsa do Minuto (Valsa op. 64 nr 1), ou o menos conhecido Improviso op. 29 em lá bemol maior.
Nos dois tercetos, Florbela remete diretamente ao intérprete, que “mansinho, roça os dedos plo teclado”, e que é “alma, sacrário de almas”, além de ser o “meu amado”. O mais interessante é ser o intérprete quem traz, através de sua interpretação, a “divina, triste, grande sombra loira” que vem para a poetisa, isto é, a ouvinte do pianista, “na escuridão da sala”. Dessa linda e delicada maneira ela coloca o intérprete como um repositório sagrado de outras almas. E, em verdade, é a conjugação das almas de criador e intérprete que permite manter viva, hoje, a música de ontem, e amanhã manterá viva a música de hoje...
Mas o fato mais raro é uma outra forma de expressão, como a poesia, interpretar tão bem a realidade abstrata da música. E esta é, sobretudo, uma prova de grandeza: o grande músico Frederic Chopin é visto por uma grande poetisa nos aspectos em que ambos, cada qual em sua arte, se aproximam: o romantismo exacerbado, os contrastes, e a profunda e angustiante tristeza que os consumiu e os levou deste mundo relativamente jovens: ele, com 39 anos, ela com 36.
CHOPIN E ALCEU WAMOSY
Tua pálida mão, cheia de alma,
Sonha sobre a brancura do teclado,
Como um lírio de sons que a lua ensalma
De um mistério suavíssimo e sagrado.
Uma virgem de luto, olhos em calma,
Postas as mãos de luz reza ao teu lado,
E o seu gesto alvoral como uma palma,
Unge-te o vulto, místico, encantado...
Os acordes, tombando mansamente,
Tecem telas de bruma e agonia
Dentro do coração de quem os sente.
E, sob a tua mão, triste, soturno,
O piano vai gemendo, ao fim do dia,
Toda a humana amargura de um Noturno.
Também ele evoca o teclado, em sua brancura de lírio, e evoca o sagrado, a lua, o suavíssimo mistério. A figura da virgem de luto é original, em sua aceitação da morte (olhos em calma), com o contraste do luto e as mãos de luz (escuro/claro). O gesto dela, como uma palma (flor de velório), unge - outra vez o religioso, o sagrado – o vulto “místico, encantado”, isto é, alguém fora do mundo real.
O elemento musical propriamente dito, os acordes, “tombam” mansamente, idéia de queda, de algo que passa – o que realmente é a música, que passa no tempo – e, nessa passagem, “tecem” coisas tão leves como as “teias de bruma e agonia”. O ouvinte é expresso em seu âmago – o coração – e o verbo é “sentir”, de duplo significado, aqui, pois sentir é ouvir, em italiano, e ter sensação, em português.
Muito sutilmente, fecha-se a circularidade do poema quando, no último terceto, retoma a “mão”, que abre o soneto. Admissão tácita da qualidade essencialmente pianística da obra do músico que o poeta celebra, e que referenda a seguir, pois “o piano vai gemendo”, e se congraça com o poema de Florbela ao citar “ao fim do dia”, tal como ela evoca o lusco-fusco.
E seu final cita a forma musical que é implícita em ambos os poemas: o Noturno.
Interessante que se veja, nos dois poetas, o contraste luz/sombra, dia/noite, claro/escuro, pois em última análise este é consenso para vida (luz)/morte (escuridão).
Mas enquanto Florbela se situa ao lado do desespero, Wamosy se inclina para a tristeza. E é essa a dedicatória que faz de toda a segunda parte de seu livro, para alguém que não conheceu, que viveu em outro país, em outro continente, em outro mundo, enfim... mas com o qual se identifica na tristeza e talvez na música que ele não faz, a não ser em versos.
Dizem os biógrafos de Alceu Wamosy, Mansueto Bernardi e Till Rodrigues, que ele se emocionava tanto com os Noturnos de Chopin que chorava ao ouvi-los. Não é, pois, estranho que o poeta finalize seu poema evocando esta forma musical, da qual o pianista polonês é mestre e paradigma. A presença da noite é constante em sua obra poética, e no mesmo livro em que aparece o soneto Chopin, é publicado também um poema longo denominado Noturno. Além disso, em sua obra Alceu faz inúmeras citações de outros poetas, músicos e formas musicais.
Há um ponto em que Chopin e Wamosy se mostram irmanados: na duplicidade do caráter de suas obras. Ambos são muito mais conhecidos e louvados por lado lírico, mas apresentam um reverso heróico, politizado.
Um dos grandes sofrimentos de Chopin era ver sua pátria, a Polônia, sempre espoliada. Chamar a atenção sobre ela através de suas polonesas é uma nobre forma de erguer uma bandeira, a mais bela batalha – a do espírito.
A atividade política de Wamosy não se dá através da forma artística da poesia, mas de sua combativa ação jornalística. Acreditava tanto em seus ideais políticos que foi para a frente de batalha, como um soldado.No Rio Grande do Sul, um estado sempre ativo e politizado, durante a primeira República, ele se postou em defesa do Presidente de Província A. A. Borges de Medeiros, cujo governo estava sendo questionado por revolucionários, os Libertadores, chefiados por J. F. de Assis Brasil. E Alceu Wamosy foi ferido em combate, em 1923, na batalha de Poncho Verde, pelos adversários do governador, vindo a falecer no hospital de Santana do Livramento. Tinha apenas 28 anos e deixou uma pequena, mas significativa, obra poética de cunho simbolista, que hoje consta nas principais antologias da Língua Portuguesa.
CHOPIN E NIETSZCHE, NA VISÃO DE GUY DE POURTALÉS
O biógrafo mais conhecido de Chopin, Guy de Pourtalés, escreve uma linda página sobre o Noturno em dó menor op. 48 e transcreve um trecho do filósofo alemão F. Nietszche, comparando ambos, compositor e escritor, através de suas obras. Dessa forma: “Quando ouço o Noturno em dó menor (op. 48) onde, através de tanto sofrimento contido, esplende, contudo, misturado com a desgraça, este ideal, que não se constrói senão sobre as alegrias criadoras do espírito, penso numa página escrita por Nietszche (...). É este belo Canto da Noite, onde passam as visões negras e azuis de Chopin, seu olhar de flor, seus olhos de menina, e seu coração tão “extremamente, incrivelmente velho”. Alguns fragmentos destas estrofes me parecem fornecer ao Noturno de que falo - e à solidão final em que agora o Poeta vai entrar – um comentário digno deles.
O canto da noite
É noite: eis que se ergue mais alta a voz das fonte marulhantes.
E minha alma é também uma fonte marulhante.
É noite: eis que se elevam todas as canções de todos os amantes.
E minha alma é também uma canção de amante.
Há em mim algo de inquieto e intranquilizável que quer elevar a voz.
Há em mim um desejo de amor que fala, ele próprio, a linguagem do amor.
Sou luz: ah! se eu fosse noite! Minha solidão, porém, está em ser envolvido de luz.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
VOLTADO PARA O FUTURO
No primeiro dia em que o vi, ele entrou na Sala dos Professores, no intervalo das aulas, e me pareceu uma pessoa muito feliz. Contava coisas de New York, de sua alegria ao ir dar aulas na Juilliard, do Metrô sempre cheio, do mau-humor novaiorquino... De como se come bem em São Paulo... E tudo me pareceu sobretudo saudades do Brasil...
Pois ele, Alphonse Poulin, tinha morado em São Paulo, muitos anos atrás, como integrante do Balé da Cidade. E agora estava na Escola Municipal de Bailado do Teatro Municipal de São Paulo, assistindo as aulas das classes mais adiantadas.
Na segunda vez em que o vi, na semana seguinte, na mesma sala, ele falava de grandes bailarinos do passado, de Alicia Alonso, que depois de sua trajetória brilhante, agora já mal consegue levantar-se. Havia uma ponta de melancolia manchando a clareza de sua alegria, a ênfase de sua fala em um português com um sotaque muito leve, ao mencionar nomes de artistas que conheceu e admirou, e que já não estão entre nós.
E depois citou a nossa Bidu Sayão, cantora admirável que o pai dele apreciava muito. Olhou para mim, e eu entrei na conversa. Falamos um pouco de cantores de ópera. Ele lamentou a morte, no ano passado, de um grande Soprano coloratura, a quem muito admirava.
- A vida artística do bailarino é muito curta... O músico tem mais sorte, tem uma vida artística mais longa...
E dividiu um pão-de-queijo com a Diretora, Esmeralda, ao que observei que eles lembravam a divisão do pão de Santo Antonio, no mês de junho. E ele falou de Portugal, onde morou por uns tempos, anos atrás; contou das festas populares, festas juninas, dos bairros que têm, cada qual, sua própria música; contou que em alguns locais a fala portuguesa é quase clássica, ainda usam o “vós”...
Sua expressão era de alegria, mas seu tema recorrente mostrou-se novamente ser a passagem do tempo. E agora me pareceu sobretudo saudades do modo de vida de um passado distante, que não volta mais...
Então Alphonse Poulin voltou-se para o Professor Roberto, falou sobre os alunos, fazendo comentários muito bons, apertou a mão do pianista Ronaldo, tecendo elogios. Acrescentou algumas coisas muito positivas sobre o trabalho da Escola.
E novamente me pareceu uma pessoa muito feliz. Que vai embora no sábado e já está levando uma saudade. A saudade de um futuro que encontrou aqui, naquelas crianças maravilhosas, prestes a decolar, a enfrentar o mundo e a carreira de bailarino, a mesma carreira que ele enfrentou um dia, apesar de saber que a “a vida artística do bailarino é muito curta”.
E então aquela alegria me pareceu esconder saudades do futuro, um futuro que inexoravelmente virá, mas que não lhe pertence. E com o qual, mesmo assim, ele contribuiu com tanta dedicação, com tanto empenho, em seus poucos dias em São Paulo.
Pois ele, Alphonse Poulin, tinha morado em São Paulo, muitos anos atrás, como integrante do Balé da Cidade. E agora estava na Escola Municipal de Bailado do Teatro Municipal de São Paulo, assistindo as aulas das classes mais adiantadas.
Na segunda vez em que o vi, na semana seguinte, na mesma sala, ele falava de grandes bailarinos do passado, de Alicia Alonso, que depois de sua trajetória brilhante, agora já mal consegue levantar-se. Havia uma ponta de melancolia manchando a clareza de sua alegria, a ênfase de sua fala em um português com um sotaque muito leve, ao mencionar nomes de artistas que conheceu e admirou, e que já não estão entre nós.
E depois citou a nossa Bidu Sayão, cantora admirável que o pai dele apreciava muito. Olhou para mim, e eu entrei na conversa. Falamos um pouco de cantores de ópera. Ele lamentou a morte, no ano passado, de um grande Soprano coloratura, a quem muito admirava.
- A vida artística do bailarino é muito curta... O músico tem mais sorte, tem uma vida artística mais longa...
E dividiu um pão-de-queijo com a Diretora, Esmeralda, ao que observei que eles lembravam a divisão do pão de Santo Antonio, no mês de junho. E ele falou de Portugal, onde morou por uns tempos, anos atrás; contou das festas populares, festas juninas, dos bairros que têm, cada qual, sua própria música; contou que em alguns locais a fala portuguesa é quase clássica, ainda usam o “vós”...
Sua expressão era de alegria, mas seu tema recorrente mostrou-se novamente ser a passagem do tempo. E agora me pareceu sobretudo saudades do modo de vida de um passado distante, que não volta mais...
Então Alphonse Poulin voltou-se para o Professor Roberto, falou sobre os alunos, fazendo comentários muito bons, apertou a mão do pianista Ronaldo, tecendo elogios. Acrescentou algumas coisas muito positivas sobre o trabalho da Escola.
E novamente me pareceu uma pessoa muito feliz. Que vai embora no sábado e já está levando uma saudade. A saudade de um futuro que encontrou aqui, naquelas crianças maravilhosas, prestes a decolar, a enfrentar o mundo e a carreira de bailarino, a mesma carreira que ele enfrentou um dia, apesar de saber que a “a vida artística do bailarino é muito curta”.
E então aquela alegria me pareceu esconder saudades do futuro, um futuro que inexoravelmente virá, mas que não lhe pertence. E com o qual, mesmo assim, ele contribuiu com tanta dedicação, com tanto empenho, em seus poucos dias em São Paulo.
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