A reivindicação do direito de votar, em alguns países do mundo ocidental, é bastante antiga. Mas como movimento que se organiza data mais ou menos da segunda metade do século XIX. Em 1865 forma-se em Manchester, na Inglaterra, o primeiro grupo de mulheres dispostas a lutar para conquistar este direito. Esta luta fortaleceu-se a partir de 1904 em diante e é nesta época e entre esses grupos que destaca-se a figura de Ethel Smyth, autora da March of the Women, de 1911 (um século atrás!) da qual falamos em texto específico no blog www.mulheres-compositoras.blogspot.com.
No Brasil, em 1873, Francisca Senhorinha da Motta Diniz, editora do jornal O Sexo Feminino na cidade de Campanha, MG, sugeriu que as mulheres pudessem votar em eleições municipais. Após a proclamação da República, o jornal mudou seu nome para O Quinze de Novembro do Sexo Feminino e criou coluna importante em função do sufrágio feminino. Já a editora do jornal A Família, Josefina Álvares de Azevedo, escreveu e fez representar uma peça chamada O Voto Feminino, que se contrapõe à peça de França Júnior, As doutoras, na qual as mulheres são ridicularizadas ao reivindicar acesso a profissões de nível superior e ao voto.
Em 1883, o direito ao voto feminino já contava com organizações nos Estados Unidos. Carrie Chapman Chat, americana, conseguiu em 1902 uma conferência internacional em Washington para debater a questão do voto feminino. A Aliança Internacional pelo Sufrágio da Mulher, organização permanente sugerida nesta ocasião, foi lançada num Congresso em Berlim, em 1904. Esta Aliança começou com apenas 8 associadas e gradativamente foi ganhando mais adeptas. Em 1922, em Baltimore, durante a Primeira Conferência Pan-Americana de Mulheres, uma pessoa de fundamental importância para o movimento sufragista brasileiro apareceu em cena: Bertha Lutz.
Assim que retornou ao Brasil, Bertha Lutz, favoravelmente impressionada sobretudo com a maneira como a luta pelo voto era desenvolvida nos Estados Unidos, transformou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que ela havia criado, na Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Esta Federação preparou ainda em 1922 um congresso de mulheres, no Rio de Janeiro, que recebeu a visita de Carrie Chapman Chat no mês de dezembro. Homens de destaque apoiaram a iniciativa, como o senador Lauro Muller e nove estados enviaram delegados oficiais, indicados pelos governadores. Foi então criada a Aliança Brasileira pelo Sufrágio Feminino, tendo como presidente a esposa do senador Justo Chermont, autor de um projeto de lei para o sufrágio feminino, em 1919. Depois desta Aliança, várias outras foram se formando ou criando filiais, e várias pessoas e associações deram-lhe apoio.
Ainda em 1922, 170 mulheres aderiram à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. É fato digno de nota que entre as inscritas, 19 se declararam compositoras, sendo superadas em número apenas pelas encadernadoras. Não se trata aqui, todavia, de compositoras no mesmo sentido que se dá a Dame Ethel Smyth. Mas não se pode duvidar de sua existência, pois antes do advento do rádio – que começa em 1923 – muitas pessoas ganhavam a vida dando aulas de piano e imprimindo partituras de música de dança e de salão, cuja venda era também fonte de renda.
Dez anos depois, em 1932, graças ao esforço envidado por tanta gente e por tanto tempo, a mulher brasileira conquistou seu direito ao voto.
Bibliografia:
HAHNER, June A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1981.
Este espaço se propõe principalmente a comentar as relações entre música e outras artes.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
segunda-feira, 27 de junho de 2011
NARA – A FORÇA DA DELICADEZA
O show em homenagem a Nara Leão, vinte e dois anos depois que ela nos deixou (7.6.1989), evidencia a imagem que ficou, de uma cantora que foi um dos símbolos de uma geração. Nara é corporificada por uma bela atriz-cantora, Fernanda Couto, que a revela não só pelo repertório, mas também pela voz e pela postura. Uma imagem de delicadeza.
Mas não falta força a tanta delicadeza. Assim como a Nara real, Fernanda Couto – a Nara do palco – perfeitamente entrosada com Guilherme Terra (teclados), William Guedes (violão) e Rodrigo Sanchez (bateria), mostra carisma e presença cênica. E imita perfeitamente bem a maneira simples e despretensiosa de cantar daquela que dá nome ao show.
A ambientação – cenário, figurino e telão – mostra o equilíbrio de uma equipe entrosada e competente, trabalhando em função de um resultado final muito coeso.
Durante uma hora e pouco, pode-se ouvir trechos de músicas emblemáticas do período que vai de 1964 a 1977 – anos duros, anos de chumbo. A direção musical, de Pedro Paulo Bogossian, sublinha a narrativa com precisão e bom gosto. Ouvem-se as músicas da bossa nova, dos festivais, dos shows Pobre menina rica e Opinião. Por este, ela recebeu voz de prisão. Da qual foi salva por um poema de Carlos Drummond de Andrade e uma manifestação de protesto.
O caráter intimista, que é a marca da bossa nova, dá o tom do show Nara. Os músicos são muito bons, as vozes estão muito bem entrosadas, o texto é linear e coloquial. Tudo acontece como uma história de vida, narrada ora em primeira, ora em terceira pessoa. Fatos e simples lembranças, citações, tudo remete a um período em que os jovens (pelo menos alguns) tinham mais consciência política. E, apesar do tom cinzento da vida intelectual brasileira, nos anos mais marcantes da artista, fica bem claro que, sem erguer a voz, ela se fazia ouvir.
Por isso, neste dias de mais liberdade, mas de tantas agressões a nossos ouvidos, pelo excesso de ruídos e pelo excesso de banalidade, o show Nara é um oásis. Para quem vivenciou essa época. E para quem não a vivenciou, mas que precisa e merece conhecê-la.
ONDE: Teatro Jaraguá
Rua Martins Fontes, 71 – F. 3255-4380
Centro – São Paulo – SP
QUANDO: De sexta a domingo, até final de julho de 2011
Mas não falta força a tanta delicadeza. Assim como a Nara real, Fernanda Couto – a Nara do palco – perfeitamente entrosada com Guilherme Terra (teclados), William Guedes (violão) e Rodrigo Sanchez (bateria), mostra carisma e presença cênica. E imita perfeitamente bem a maneira simples e despretensiosa de cantar daquela que dá nome ao show.
A ambientação – cenário, figurino e telão – mostra o equilíbrio de uma equipe entrosada e competente, trabalhando em função de um resultado final muito coeso.
Durante uma hora e pouco, pode-se ouvir trechos de músicas emblemáticas do período que vai de 1964 a 1977 – anos duros, anos de chumbo. A direção musical, de Pedro Paulo Bogossian, sublinha a narrativa com precisão e bom gosto. Ouvem-se as músicas da bossa nova, dos festivais, dos shows Pobre menina rica e Opinião. Por este, ela recebeu voz de prisão. Da qual foi salva por um poema de Carlos Drummond de Andrade e uma manifestação de protesto.
O caráter intimista, que é a marca da bossa nova, dá o tom do show Nara. Os músicos são muito bons, as vozes estão muito bem entrosadas, o texto é linear e coloquial. Tudo acontece como uma história de vida, narrada ora em primeira, ora em terceira pessoa. Fatos e simples lembranças, citações, tudo remete a um período em que os jovens (pelo menos alguns) tinham mais consciência política. E, apesar do tom cinzento da vida intelectual brasileira, nos anos mais marcantes da artista, fica bem claro que, sem erguer a voz, ela se fazia ouvir.
Por isso, neste dias de mais liberdade, mas de tantas agressões a nossos ouvidos, pelo excesso de ruídos e pelo excesso de banalidade, o show Nara é um oásis. Para quem vivenciou essa época. E para quem não a vivenciou, mas que precisa e merece conhecê-la.
ONDE: Teatro Jaraguá
Rua Martins Fontes, 71 – F. 3255-4380
Centro – São Paulo – SP
QUANDO: De sexta a domingo, até final de julho de 2011
quarta-feira, 1 de junho de 2011
VOZ, VIOLÃO E ENCANTAMENTO
Adélia Issa, soprano, e Edelton Gloeden, violão, nos ofereceram, no último domingo de maio, pequenas e raras jóias musicais, às quais acrescentaram o brilho de suas interpretações. Raro foi esse evento, realizado na série Cortinas Lyricas, do Teatro Oficina, porque são poucas as oportunidades que temos de ouvir composições que vêm da Idade Média e Renascença, e ainda mais raras quando são obras compostas originalmente para voz e violão.
As peças de “tradição e folclore” – subtítulo do evento – são em inglês, em arranjos de Benjamin Britten; em espanhol, em arranjos de Robert Gehrard e de Joaquin Rodrigo, famoso por seu Concerto de Aranjuez; em francês, arranjadas por M. Seiber. As raras canções em português são harmonizadas por Fernando Lopes Graça, escritor, compositor e musicólogo português, que assessorou Béla Bartók em Portugal, quando este dedicou-se às pesquisas folclóricas em solo lusitano. Mais conhecido como escritor e musicólogo, Lopes Graça demonstrou boas qualidades em seu trabalho composicional.
O recital contou ainda com peças para violão solo, que entremearam a parte de canto. A Mazurca de Tansman e as Sevillanas, de J. Turina ,são obras fortes, que exigem técnica firme e virtuosismo ( o que Gloeden realiza com plenitude). A segunda obra, dedicada a Andrés Segóvia, com seus “rasqueados”, evoca o repertório flamenco. O violão brasileiro, que é uma tradição à parte, foi representado por Radamés Gnatalli, com sua Tocata em ritmo de samba nr 2, que exige as mesmas qualidades que as anteriores.
O argentino Carlos Guastavino, falecido em 2000, compareceu com a encantadora e nostálgica Pueblito, mi pueblo, que nos anos de ditadura foi uma espécie de hino dos exilados políticos – conforme nos informou Adélia Issa. E o brasileiro Mozart Camargo Guarnieri, falecido em 1993, foi representado pelas 3 canções brasileiras, que trazem o mesmo tom jocoso que as peças antigas: Vou-me embora, Quando embalada e Quebra o coco, menina (esta, com texto de Juvenal Galeno).
O bis não foi menos interessante: a cantiga de Natal de Ernest Mahle com texto de Vinícius de Moraes.
O perfeito entrosamento entre ambos, a bela voz e interpretação solta, leve e adequada, de Adélia Issa, e a feliz escolha de repertório deixaram o público entusiasmado. Tão entusiasmado que os aplausos emocionaram até as lágrimas a produtora do evento, Naomy Schölling. Graças ao patrocínio da Petrobras, que vem presenteando o público paulista com belos recitais, foi colocado em cena um jovem poeta, Daniel Ferreira, que, parafraseando trechos do repertório, manifestou em versos seu deslumbramento.
Um domingo feliz para todos nós. Que nos irmanamos nos aplausos... pela beleza e encantamento...pelos momentos felizes, ao som de voz e violão ...
As peças de “tradição e folclore” – subtítulo do evento – são em inglês, em arranjos de Benjamin Britten; em espanhol, em arranjos de Robert Gehrard e de Joaquin Rodrigo, famoso por seu Concerto de Aranjuez; em francês, arranjadas por M. Seiber. As raras canções em português são harmonizadas por Fernando Lopes Graça, escritor, compositor e musicólogo português, que assessorou Béla Bartók em Portugal, quando este dedicou-se às pesquisas folclóricas em solo lusitano. Mais conhecido como escritor e musicólogo, Lopes Graça demonstrou boas qualidades em seu trabalho composicional.
O recital contou ainda com peças para violão solo, que entremearam a parte de canto. A Mazurca de Tansman e as Sevillanas, de J. Turina ,são obras fortes, que exigem técnica firme e virtuosismo ( o que Gloeden realiza com plenitude). A segunda obra, dedicada a Andrés Segóvia, com seus “rasqueados”, evoca o repertório flamenco. O violão brasileiro, que é uma tradição à parte, foi representado por Radamés Gnatalli, com sua Tocata em ritmo de samba nr 2, que exige as mesmas qualidades que as anteriores.
O argentino Carlos Guastavino, falecido em 2000, compareceu com a encantadora e nostálgica Pueblito, mi pueblo, que nos anos de ditadura foi uma espécie de hino dos exilados políticos – conforme nos informou Adélia Issa. E o brasileiro Mozart Camargo Guarnieri, falecido em 1993, foi representado pelas 3 canções brasileiras, que trazem o mesmo tom jocoso que as peças antigas: Vou-me embora, Quando embalada e Quebra o coco, menina (esta, com texto de Juvenal Galeno).
O bis não foi menos interessante: a cantiga de Natal de Ernest Mahle com texto de Vinícius de Moraes.
O perfeito entrosamento entre ambos, a bela voz e interpretação solta, leve e adequada, de Adélia Issa, e a feliz escolha de repertório deixaram o público entusiasmado. Tão entusiasmado que os aplausos emocionaram até as lágrimas a produtora do evento, Naomy Schölling. Graças ao patrocínio da Petrobras, que vem presenteando o público paulista com belos recitais, foi colocado em cena um jovem poeta, Daniel Ferreira, que, parafraseando trechos do repertório, manifestou em versos seu deslumbramento.
Um domingo feliz para todos nós. Que nos irmanamos nos aplausos... pela beleza e encantamento...pelos momentos felizes, ao som de voz e violão ...
quinta-feira, 31 de março de 2011
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
FRANCISCA JÚLIA: POEMAS PARA NÃO ESQUECER
ESTELA
Como dorme feliz, anjo adorado,
nesse teu berço, assim... tu, cujos olhos
nunca viram misérias nem abrolhos
mas vêem somente o maternal cuidado.
O anjo da guarda está velando ao lado
do teu berço, a sorrir... Os teus antolhos
são, por enquanto, os ondulantes folhos
do teu bercinho de ébano lavrado.
Dorme, que enquanto o querubim te vela,
ele te envolve nessa etérea veste
que usam no céu os querubins, Estela;
dorme; o teu sonho cheio de fulgores,
decerto eleva-te a um país celeste
todo cheio de pássaros e flores.
RÚSTICA
Da casinha em que vive, o reboco alvacento
Reflete o ribeirão na água clara e sonora.
Este é o ninho feliz e obscuro em que ela mora
Além, o seu quintal; este, o seu aposento.
Vem do campo, a correr; e úmida do relento,
Toda ela, fresca do ar, tanto aroma evapora,
Que parece trazer consigo, lá de fora,
Na desordem da roupa e do cabelo, o vento...
E senta-se. Compõe as roupas. Olha em torno
Com seus olhos azuis onde a inocência bóia;
Nessa meia penumbra e nesse ambiente morno,
Pegando da costura à luz da clarabóia,
Põe na ponta do dedo em feitio de adorno,
O seu lindo dedal com pretensão de jóia.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora tenha sido quase esquecida depois de sua morte e do Modernismo, Francisca Júlia teve em vida uma plenitude que poucos tiveram, pois seu trabalho como poetisa foi muito reconhecido por seus contemporâneos, e sua vida particular indica uma felicidade rara que também poucos tiveram.
Mas é preciso atualizar alguns conceitos que, por nunca terem sido revisados, passaram para a história sem questionamento. O primeiro é que seria ela uma poetisa que levou às últimas conseqüências as normas da escola parnasiana, quanto à perfeição formal e quanto a um distanciamento que permite apenas a visão exterior do tema enfocado. Quanto à perfeição formal, pelo menos em seus poemas mais conhecidos, não há reparo a fazer; quanto à visão apenas exteriorizada, não deixa de ser verdade, mas podemos acrescentar que em seus poemas há uma vivacidade que faz com que o quadro que ela pinta tenha movimento, cor, vida, ternura. Estela e Rústica o comprovam, logo à primeira leitura.
Um outro conceito que merece atualização é em relação ao seu casamento. Na época em que viveu, a escolha que ela fez de seu marido não era bem vista, sobretudo no meio literário. Foi cruel o que disseram dela e de Edmundo, como se, por não ser ele também um intelectual, a diminuísse. A arrogância de seu meio tinha uma forte dose de machismo, pois expressava o pensamento geral de que o homem é quem deveria ter uma posição intelectual “superior”( e aqui coloco a palavra entre aspas para destacar o preconceito em relação às mulheres e àqueles que não eram bacharéis).
Mas a visão renovada dos fatos, devido à reviravolta que se deu em relação às mulheres, nestes últimos quarenta anos, pode nos fazer rever esta bela figura que deve ter sido Edmundo Filadelpho Münster. Ele foi realmente um homem superior em espírito, um homem capaz de amar pelo amor, elevando sua talentosa esposa sem sentir-se nunca rebaixado (ou eles não teriam sido tão felizes)...
Edmundo Münster pode ser encarado hoje em dia como o protótipo do homem moderno: aquele que é capaz de aplaudir a companheira, incentivá-la, e não ter o relacionamento interpessoal como um fator de concorrência. Não escreveu versos, mas viveu em estado de poesia – porque a grandeza de seu espírito permitiu e estimulou.
Como dorme feliz, anjo adorado,
nesse teu berço, assim... tu, cujos olhos
nunca viram misérias nem abrolhos
mas vêem somente o maternal cuidado.
O anjo da guarda está velando ao lado
do teu berço, a sorrir... Os teus antolhos
são, por enquanto, os ondulantes folhos
do teu bercinho de ébano lavrado.
Dorme, que enquanto o querubim te vela,
ele te envolve nessa etérea veste
que usam no céu os querubins, Estela;
dorme; o teu sonho cheio de fulgores,
decerto eleva-te a um país celeste
todo cheio de pássaros e flores.
RÚSTICA
Da casinha em que vive, o reboco alvacento
Reflete o ribeirão na água clara e sonora.
Este é o ninho feliz e obscuro em que ela mora
Além, o seu quintal; este, o seu aposento.
Vem do campo, a correr; e úmida do relento,
Toda ela, fresca do ar, tanto aroma evapora,
Que parece trazer consigo, lá de fora,
Na desordem da roupa e do cabelo, o vento...
E senta-se. Compõe as roupas. Olha em torno
Com seus olhos azuis onde a inocência bóia;
Nessa meia penumbra e nesse ambiente morno,
Pegando da costura à luz da clarabóia,
Põe na ponta do dedo em feitio de adorno,
O seu lindo dedal com pretensão de jóia.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora tenha sido quase esquecida depois de sua morte e do Modernismo, Francisca Júlia teve em vida uma plenitude que poucos tiveram, pois seu trabalho como poetisa foi muito reconhecido por seus contemporâneos, e sua vida particular indica uma felicidade rara que também poucos tiveram.
Mas é preciso atualizar alguns conceitos que, por nunca terem sido revisados, passaram para a história sem questionamento. O primeiro é que seria ela uma poetisa que levou às últimas conseqüências as normas da escola parnasiana, quanto à perfeição formal e quanto a um distanciamento que permite apenas a visão exterior do tema enfocado. Quanto à perfeição formal, pelo menos em seus poemas mais conhecidos, não há reparo a fazer; quanto à visão apenas exteriorizada, não deixa de ser verdade, mas podemos acrescentar que em seus poemas há uma vivacidade que faz com que o quadro que ela pinta tenha movimento, cor, vida, ternura. Estela e Rústica o comprovam, logo à primeira leitura.
Um outro conceito que merece atualização é em relação ao seu casamento. Na época em que viveu, a escolha que ela fez de seu marido não era bem vista, sobretudo no meio literário. Foi cruel o que disseram dela e de Edmundo, como se, por não ser ele também um intelectual, a diminuísse. A arrogância de seu meio tinha uma forte dose de machismo, pois expressava o pensamento geral de que o homem é quem deveria ter uma posição intelectual “superior”( e aqui coloco a palavra entre aspas para destacar o preconceito em relação às mulheres e àqueles que não eram bacharéis).
Mas a visão renovada dos fatos, devido à reviravolta que se deu em relação às mulheres, nestes últimos quarenta anos, pode nos fazer rever esta bela figura que deve ter sido Edmundo Filadelpho Münster. Ele foi realmente um homem superior em espírito, um homem capaz de amar pelo amor, elevando sua talentosa esposa sem sentir-se nunca rebaixado (ou eles não teriam sido tão felizes)...
Edmundo Münster pode ser encarado hoje em dia como o protótipo do homem moderno: aquele que é capaz de aplaudir a companheira, incentivá-la, e não ter o relacionamento interpessoal como um fator de concorrência. Não escreveu versos, mas viveu em estado de poesia – porque a grandeza de seu espírito permitiu e estimulou.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
UMA HISTÓRIA DE AMOR
Estes primeiros dias de novembro marcam os noventa anos da confirmação de uma das mais belas histórias de amor já vividas sob o céu da Paulicéia: a de Francisca Júlia e Edmundo Münster.
Noventa anos atrás a vida literária brasileira ainda vivia uma era parnasiana. A arte poética primava pela afirmação da forma, e uma constante apreciação da poesia, pelos próprios poetas e pelo público leitor, tornava extremados os princípios de escola. Dois anos depois, deflagrou-se o Movimento Modernista, em pleno ano do centenário da Independência – e a poesia declarou a independência do Belo pelo Belo, da Forma pela Forma.
Talvez a proximidade da morte de Francisca Júlia e os estertores do Parnasianismo tenha causado o esquecimento em que mergulharam todos os Apóstolos da mesma escola poética em que ela primou, como uma princesa. Princesa, não; rainha. Ela foi a seguidora mais fiel de todos os cânones parnasianos, e era, já na época, considerada a artista suprema da escola em que primavam nomes como Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira, entre outros ilustres representantes.
Todavia, seu sucesso não era bem recebido por muitos leitores. Não por razões literárias, mas porque ela era mulher; e, no pensamento de seus contemporâneos, uma mulher não deve ter um nome e um brilho próprios. É na biografia de Olavo Bilac que encontramos uma referência direta a essa restrição, pois, ao tomar conhecimento de carta grosseira de um leitor, publicada em um jornal, que dizia coisas pesadas a Francisca Júlia, não pelo conteúdo de seus poemas, mas por ser ela uma mulher, ele sugeriu a sua noiva Amélia de Oliveira – irmã do poeta Alberto de Oliveira – que nunca publicasse seus poemas, para não se expor.
Entre seus pares, todavia, Francisca Júlia sofria restrições por seu casamento com Edmundo Philadelpho Münster, um casamento de amor, de muito amor. As restrições se deviam ao fato de ser ele um homem simples, sem pretensões artísticas ou literárias. O preconceito parece ter sido manifestado bem às escâncaras, pois Aureliano Leite comentou a recusa da poeta em concorrer (ou a assumir) a uma vaga na Academia Brasileira de Letras “para não deixar à porta seu marido” (citado na revista Leia, ano XL, 1990, nr 135, p. 26).
Mas a prova mais cabal deste amor deu-se no dia 1º. de novembro de 1920. No dia 31 de outubro, Edmundo faleceu. Ao despedir-se do corpo, Francisca Júlia teve um colapso e morreu, sendo sepultada no dia seguinte, em campa adquirida por seu irmão, o também poeta Júlio Cesar da Silva.
Como as informações sobre o fato encontram algumas divergências (em fonte que não recordo, afirma-se que ela morreu muito depois dele e que a história dessa “morte de amor” era lendária), fomos confirmar no Cemitério do Araçá, depois de ter visto em uma publicação que Victor Brecheret fez uma escultura para seu túmulo.
Não foi preciso explicar aos funcionários da Administração do Cemitério quem era Francisca Júlia. Todos sabiam, e um deles nos contou orgulhosamente que ela nasceu na mesma cidade que seu pai (Xiririca, hoje Eldorado Paulista). Imediatamente se prontificaram a nos mostrar o túmulo. Este possui uma placa informando que a escultura original de Brecheret, em mármore, foi transferida para a Pinacoteca, e que a substituição pela réplica em bronze foi autorizada pelos familiares da poetisa, mas não informa quem está ali sepultado.
Voltamos à Administração. Com enorme boa vontade, nos cederam, para consulta no local, o registro original, onde consta que Júlio César da Silva comprou o terreno no dia 1º. de novembro de 1920 para sepultar o cunhado, mas que dois dias depois sepultou também a própria irmã.
Se alguém duvida que se possa morrer de amor, visite o túmulo de Edmundo Philadelpho Münster e Francisca Júlia da Silva Münster. Fica logo à entrada, no portão principal, à direita, em uma rua sem calçamento.
O túmulo se distingue dos outros por uma estátua de bronze, de concepção moderna, em que a mulher representada tem um seio coberto e outro desnudo. Podemos interpretar este detalhe como uma referência à sua duplicidade, que até 1920 era muito rara: Francisca Júlia era artista, mas nunca deixou de ser também mulher.
E, apesar de ser Parnasiana, morreu de amor, como uma heroína romântica.
Noventa anos atrás a vida literária brasileira ainda vivia uma era parnasiana. A arte poética primava pela afirmação da forma, e uma constante apreciação da poesia, pelos próprios poetas e pelo público leitor, tornava extremados os princípios de escola. Dois anos depois, deflagrou-se o Movimento Modernista, em pleno ano do centenário da Independência – e a poesia declarou a independência do Belo pelo Belo, da Forma pela Forma.
Talvez a proximidade da morte de Francisca Júlia e os estertores do Parnasianismo tenha causado o esquecimento em que mergulharam todos os Apóstolos da mesma escola poética em que ela primou, como uma princesa. Princesa, não; rainha. Ela foi a seguidora mais fiel de todos os cânones parnasianos, e era, já na época, considerada a artista suprema da escola em que primavam nomes como Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira, entre outros ilustres representantes.
Todavia, seu sucesso não era bem recebido por muitos leitores. Não por razões literárias, mas porque ela era mulher; e, no pensamento de seus contemporâneos, uma mulher não deve ter um nome e um brilho próprios. É na biografia de Olavo Bilac que encontramos uma referência direta a essa restrição, pois, ao tomar conhecimento de carta grosseira de um leitor, publicada em um jornal, que dizia coisas pesadas a Francisca Júlia, não pelo conteúdo de seus poemas, mas por ser ela uma mulher, ele sugeriu a sua noiva Amélia de Oliveira – irmã do poeta Alberto de Oliveira – que nunca publicasse seus poemas, para não se expor.
Entre seus pares, todavia, Francisca Júlia sofria restrições por seu casamento com Edmundo Philadelpho Münster, um casamento de amor, de muito amor. As restrições se deviam ao fato de ser ele um homem simples, sem pretensões artísticas ou literárias. O preconceito parece ter sido manifestado bem às escâncaras, pois Aureliano Leite comentou a recusa da poeta em concorrer (ou a assumir) a uma vaga na Academia Brasileira de Letras “para não deixar à porta seu marido” (citado na revista Leia, ano XL, 1990, nr 135, p. 26).
Mas a prova mais cabal deste amor deu-se no dia 1º. de novembro de 1920. No dia 31 de outubro, Edmundo faleceu. Ao despedir-se do corpo, Francisca Júlia teve um colapso e morreu, sendo sepultada no dia seguinte, em campa adquirida por seu irmão, o também poeta Júlio Cesar da Silva.
Como as informações sobre o fato encontram algumas divergências (em fonte que não recordo, afirma-se que ela morreu muito depois dele e que a história dessa “morte de amor” era lendária), fomos confirmar no Cemitério do Araçá, depois de ter visto em uma publicação que Victor Brecheret fez uma escultura para seu túmulo.
Não foi preciso explicar aos funcionários da Administração do Cemitério quem era Francisca Júlia. Todos sabiam, e um deles nos contou orgulhosamente que ela nasceu na mesma cidade que seu pai (Xiririca, hoje Eldorado Paulista). Imediatamente se prontificaram a nos mostrar o túmulo. Este possui uma placa informando que a escultura original de Brecheret, em mármore, foi transferida para a Pinacoteca, e que a substituição pela réplica em bronze foi autorizada pelos familiares da poetisa, mas não informa quem está ali sepultado.
Voltamos à Administração. Com enorme boa vontade, nos cederam, para consulta no local, o registro original, onde consta que Júlio César da Silva comprou o terreno no dia 1º. de novembro de 1920 para sepultar o cunhado, mas que dois dias depois sepultou também a própria irmã.
Se alguém duvida que se possa morrer de amor, visite o túmulo de Edmundo Philadelpho Münster e Francisca Júlia da Silva Münster. Fica logo à entrada, no portão principal, à direita, em uma rua sem calçamento.
O túmulo se distingue dos outros por uma estátua de bronze, de concepção moderna, em que a mulher representada tem um seio coberto e outro desnudo. Podemos interpretar este detalhe como uma referência à sua duplicidade, que até 1920 era muito rara: Francisca Júlia era artista, mas nunca deixou de ser também mulher.
E, apesar de ser Parnasiana, morreu de amor, como uma heroína romântica.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
CAPITÃES DO ASFALTO
Estava prevista para setembro último a estréia do filme Capitães da Areia, mas não está anunciada ainda. O filme se baseia no livro homônimo de Jorge Amado, livro este que foi adotado como leitura obrigatória, em décadas passadas, em algumas escolas de São Paulo.
Escrito em 1937, Capitães da Areia coincide com a criação do ensino escolar obrigatório e, naturalmente, narra a vida e as desventuras de meninos em situação de rua na cidade de Salvador, Bahia, sob a liderança de Pedro Bala, triste, mas verdadeiro, herói mirim.
Setenta e três anos correspondem a três gerações. Em todo este tempo, o analfabetismo não foi erradicado no Brasil, o trabalho infantil não foi erradicado no Brasil, a pedofilia só recentemente foi denunciada e todas as iniciativas em prol do estabelecimento de dignidade e respeito com a infância foram e continuam sendo solapadas sistematicamente. Às vezes, pelo poder público (lembram dos CIEPS do Rio de Janeiro e dos CEUS de São Paulo?); às vezes pela própria população, que tem pela criança abandonada uma atitude não só de desprezo, mas de franca hostilidade.
É o que acontece na São Paulo de hoje. Desestabilizada por uma suposta ação de valorização imobiliária da região chamada “cracolândia”, sua população de rua espalhou-se pelo Centro da cidade, criando uma legião de adultos e crianças maltrapilhos, vagando sem destino e, como era de se esperar, assustando e assaltando moradores e transeuntes.
A atuação e as atividades das crianças nessa situação lembram muito as de Pedro Bala e seus amigos, só que eles não estão nas belas praias de Salvador, mas no duro e cinzento asfalto de São Paulo.
É impossível, em tempos de eleição, deixar de perceber que famílias de políticos se perpetuam no poder. Os pais e “padrinhos” preparam desde cedo os filhos e “afilhados” para o exercício da política, ensinando-lhes todos os truques, todos os recursos do vazio retórico, todas as artimanhas de que se valem os donos do poder para cuidar de si mesmos e nem lembrar para que foram eleitos.
Também os pais dos meninos de rua, sejam capitães da areia ou capitães do asfalto, se perpetuam no analfabetismo, na miséria, na violência, e assim, quando ainda têm casa, colocam os filhos para fora dela.
São duas linhas paralelas: a pobreza endêmica e a politicagem hereditária. É um triste paralelo. Mas, sem dúvida, uma relação de causa e efeito muito visível, muito clara.
Cumpram os engravatados senhores metade de suas obrigações de legisladores ou executivos, e as duas linhas começarão a se aproximar, deixando de ser paralelas e juntando-se numa só, na qual se poderá apor a denominação de CIDADANIA.
Escrito em 1937, Capitães da Areia coincide com a criação do ensino escolar obrigatório e, naturalmente, narra a vida e as desventuras de meninos em situação de rua na cidade de Salvador, Bahia, sob a liderança de Pedro Bala, triste, mas verdadeiro, herói mirim.
Setenta e três anos correspondem a três gerações. Em todo este tempo, o analfabetismo não foi erradicado no Brasil, o trabalho infantil não foi erradicado no Brasil, a pedofilia só recentemente foi denunciada e todas as iniciativas em prol do estabelecimento de dignidade e respeito com a infância foram e continuam sendo solapadas sistematicamente. Às vezes, pelo poder público (lembram dos CIEPS do Rio de Janeiro e dos CEUS de São Paulo?); às vezes pela própria população, que tem pela criança abandonada uma atitude não só de desprezo, mas de franca hostilidade.
É o que acontece na São Paulo de hoje. Desestabilizada por uma suposta ação de valorização imobiliária da região chamada “cracolândia”, sua população de rua espalhou-se pelo Centro da cidade, criando uma legião de adultos e crianças maltrapilhos, vagando sem destino e, como era de se esperar, assustando e assaltando moradores e transeuntes.
A atuação e as atividades das crianças nessa situação lembram muito as de Pedro Bala e seus amigos, só que eles não estão nas belas praias de Salvador, mas no duro e cinzento asfalto de São Paulo.
É impossível, em tempos de eleição, deixar de perceber que famílias de políticos se perpetuam no poder. Os pais e “padrinhos” preparam desde cedo os filhos e “afilhados” para o exercício da política, ensinando-lhes todos os truques, todos os recursos do vazio retórico, todas as artimanhas de que se valem os donos do poder para cuidar de si mesmos e nem lembrar para que foram eleitos.
Também os pais dos meninos de rua, sejam capitães da areia ou capitães do asfalto, se perpetuam no analfabetismo, na miséria, na violência, e assim, quando ainda têm casa, colocam os filhos para fora dela.
São duas linhas paralelas: a pobreza endêmica e a politicagem hereditária. É um triste paralelo. Mas, sem dúvida, uma relação de causa e efeito muito visível, muito clara.
Cumpram os engravatados senhores metade de suas obrigações de legisladores ou executivos, e as duas linhas começarão a se aproximar, deixando de ser paralelas e juntando-se numa só, na qual se poderá apor a denominação de CIDADANIA.
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