segunda-feira, 28 de outubro de 2013

ISRAEL DE ALMEIDA, CORAÇÃO DE SETE CORDAS


No dia 21 de outubro de 2013, Israel Bueno de Almeida, violonista do grupo Izaías e seus Chorões e de muitos outros grupos que fizeram a glória do choro em São Paulo, completou 70 anos. Mandei um e.mail com votos de felicidades, e ele me respondeu com a modéstia lacônica de sempre.

Israel fala pouco, mas é capaz de surpreender com achados verbais sempre adequados, onde não falta um toque espirituoso, quase irônico. Mas acredito que isso seja apenas entre pessoas com as quais mantém um contato mais próximo, pois geralmente, em público, fala pouco. O que me proporcionou a oportunidade de conhecer esse traço pessoal foi o fato de termos trabalhado juntos durante quinze anos, tempo em que implementei um projeto de reestruturação do Arquivo Artístico do Teatro Municipal (que é um arquivo de partituras para uso dos Corpos Estáveis do Teatro).

         Grande conhecedor de música em teoria e, na prática, de música popular, Israel é irmão e parceiro musical de Izaías Bueno de Almeida, bandolinista histórico de São Paulo. Izaías também trabalhou no Arquivo, por menos tempo que o irmão, mas o suficiente para eu poder observar e até traçar um perfil psicológico de ambos. Izaías é loquaz, brincalhão, comunicativo – e faz muito bem o papel de mestre de cerimônias quando o grupo se apresenta. É músico com perfil de solista, enquanto Israel faz a base harmônica, sempre criativa, desenhando baixos surpreendentes e suas correspondentes harmonias. Estas características musicais se manifestam também nas composições de ambos, onde a linha das músicas de Izaías revela sua vocação de melodista, que se destaca em sua harmonia muito rica e bem tradicional. Já a harmonia visivelmente elaborada de Israel completa desenhos melódicos originais e de caráter jazzístico.

         Ao assumir a chefia do Arquivo, verifiquei que os dados biográficos dos músicos contratados precisavam de uma redação mais completa, mostrando melhor a trajetória de cada um. Como já conhecia um pouco todos eles, sabia que Israel tinha tocado no Show do Dia 7, programa de muito sucesso na Rede Record, nos anos 60, e também no lendário O Fino da Bossa, acompanhando Elis Regina e Jair Rodrigues, na mesma época.

Ao reescrever os currículos, começou a difícil missão de fazê-lo lembrar das suas principais realizações musicais, inclusive os muitos discos de que participou. Não acho que Israel quisesse esconder seus trabalhos: parece mais que estava sempre voltado para o futuro, para as coisas que viria a fazer. E tudo isso, aliás, era sempre uma retomada do passado mais brilhante do choro, tradição que o conjunto Izaías e seus Chorões mantêm até hoje. Sua modéstia, acho, deriva da posição de quem faz questão de compartilhar um tesouro com as gerações atuais. E que se coloca como agente dessa tradição, deixando de lado sua própria individualidade e seu papel nesse trajeto.

Começando com o cavaquinho harmônico, Israel passou para o violão tradicional, e dele para o violão de 7 cordas. Aos 17 anos, por indicação de seu mestre (acho que Antonio D’Auria) foi atuar como violonista em regional de uma Rádio, pois era a época em que os regionais passavam a substituir as grandes orquestras, que caracterizam a música ao vivo nas rádios nos anos quarenta e cinqüenta. Não muito mais tarde, já se destacava como violonista (isto não foi ele quem contou). Depois do período em que a MPB atingiu seu auge, atuou no Conjunto Atlântico (anos 70) e esteve morando no Rio de Janeiro, tocando no Cassino da Urca. Quando seu pai morreu, voltou a São Paulo e passou a tocar mais regularmente com o irmão, embora continuasse tocando em gravações.

Nos anos oitenta, por insistência de Cristina Azuma, violonista brasileira radicada na França, participou de um concurso na Martinica. E ganhou o primeiro prêmio com sua belíssima composição Frio e chuva, que essa violonista interpretou. Esta e outras seis músicas suas são atualmente representadas na França pela Editora Henri Lemoine.

         Comecei falando de seu laconismo e de sua verve irônica e espirituosa.

Pois vou terminar assim também.

Ao concluir o curso superior em música, no Dramático e Musical de São Paulo, Israel recebeu como proposta para o TCC (trabalho de conclusão de curso) a composição de uma peça musical. Contou ele que o Professor disse: “E você, escreva alguma coisa”. Ele escreveu uma peça orquestral. O nome? “Alguma coisa”.

Lembro ainda que um dia Israel chegou ao Arquivo contando que, no ônibus, uma moça que queria passar lhe deu um empurrão, dizendo: “Sai pra lá, velho!” Isto porque tem os cabelos completamente brancos desde seus vinte anos.

         Mas a resposta dele foi rápida: “Velho? Ah, se você tiver sorte, vai ficar velha também!”

domingo, 29 de setembro de 2013

CORAL PAULISTANO – BRILHO MAIOR NA MÚSICA BRASILEIRA

      Quero falar, com grande alegria e admiração, da belíssima apresentação do Coral Paulistano, na data de 28 de setembro de 2013, em que este conjunto vocal, criado por Mário de Andrade, retomou sua vocação inicial: a música brasileira, vocal e de câmara. É importante frisar que esta é uma vocação inicial, primordial, uma vocação que deveria ser visceral, que jamais fosse abolida. Entretanto, ela foi sendo gradativamente abandonada. Mas a retomada desta vocação, neste evento ímpar, ainda que breve e pontual, deve ser mantida.
Durante uma hora, as vozes femininas do Coral Paulistano, um contratenor, a pianista Rosana Civile e o cantor-regente Sérgio Werneck resgataram um repertório que hoje em dia raramente é apresentado: quinze peças cantadas em português, de grandes compositores e grandes poetas, além de textos de origem indígena ou afro-brasileira!
Desde Alberto Nepomuceno (1864-1920), pioneiro do canto em português, até João Guilherme Ripper (1959), e contando com a presença do mestre Edmundo Villani-Côrtes, as canções acompanhadas ao piano, ou coral com solistas, mostraram muito do que nossos poetas e compositores criaram com tanto brilho. E esta é a expressão brasileira do canto, tal como Mário de Andrade demonstrou, ao fazer do Coral Paulistano o principal veículo das peças corais já existentes, e das que ainda fossem criadas por nossos compositores.
E esta apresentação mostrou também como o Coral Paulistano, em conjunto ou em cada intérprete, tem rara qualidade vocal.
Posso me manifestar como ouvinte atenta e encantada, e também como ex-Chefe do Arquivo de Partituras do Teatro Municipal. Nessa função, de 1992 a 2004, além de atender a demanda dos Corpos Estáveis, inventariei, com ajuda dos funcionários, os mais de 10.000 títulos de obras existentes na entidade. Depois de tantos anos passados, claro que não posso lembrar, em termos de estatística, os meios de expressão do acervo, mas lembro muito bem que o Coral Paulistano teria cerca de 4.000 títulos, ou mais.
Boa parte dessas partituras, naturalmente, é de obras vocais de grandes autores da música européia, algumas com texto original, outras com texto traduzido. Outra parte é de arranjos de música popular midiática, nacional e internacional, principalmente dos últimos anos, quando se investiu apenas neste gênero. Digamos que sobram entre 600 e 800 títulos no mesmo espírito do ato de criação do Coral Paulistano, em 1936: canto coral em português, tratando de nossos temas mais próximos, de fundo folclórico (que Mário de Andrade chamava de “popular”) e seus correlatos de origem indígena ou afro-brasileira.
Se em apenas 15 músicas, nosso encantamento foi tanto, o que diríamos se pudéssemos ouvir pelo menos metade do acervo original do Coral Paulistano? Este material poético e musical está há tanto tempo esquecido, esperando que se resgate pelo canto o que está apenas no silêncio de uma partitura guardada.
Se alguém sinalizasse a existência de um tesouro, de bens materiais, no fundo do mar ou nas entranhas da terra, não haveria uma enorme corrida em busca desse bem? Por que então, quando se anuncia a existência de tesouros culturais esquecidos, as pessoas com poder decisório não querem ouvir, não querem ver, não querem saber? Que razão oculta tão poderosa é essa, que impede o resgate da imagem de um país, o resgate de uma identidade cultural própria, e ainda cala as poucas vozes que poderiam trazer à tona tanta beleza?
Que tipo de administração cultural deveríamos ter, que percebesse o respeito que as artes e os artistas merecem, como porta-vozes de um povo que, apesar das grandes diferenças regionais, se mantém coeso em termos de língua e musicalidade?
Pena que, às vésperas dos 70 anos de falecimento de Mário de Andrade (1945-2015), e dos 80 anos da criação do Coral Paulistano (1936-2016), se pretenda o fim deste conjunto vocal que tanto orgulho deu e dá aos paulistas. Mas é bem mais triste que em São Paulo e no Brasil nunca se adote a prática de “somar”, e sempre a de “excluir”.
É de triste lembrança a extinção do D.O. Leitura, jornal exclusivamente cultural, que foi tão importante para aqueles que se dedicam a variadas atividades intelectuais. Igualmente triste foi a extinção da Sinfonia Cultura, orquestra pequena em sua formação, em seu marketing quase inexistente, mas tão grande em suas realizações, pois fez mais pela música brasileira, em sua curta existência, que orquestras maiores.
Será que Golias tem medo de Davi?!... 
Nestes últimos anos, a opinião pública foi informada das vantagens de uma Fundação, no sentido de agilizar os trâmites para uma programação mais conveniente. Então, agora que se pode usufruir de mais facilidades administrativas e contratuais, por que não manter os grupos artísticos já existentes?
O Teatro Municipal é de ópera? Sim. Mas já não assistiu manifestações de todo gênero, em seus cem anos? Sim.
       E por último, mas não menos importante, uma pergunta que não quer calar, depois da intenção de se extinguir o Coral Paulistano: “Será que estamos mesmo numa democracia?...”

Coral Paulistano - Obras para coro feminino e piano.
Sábado, 28 de setembro de 2013, às 16h
Sala do Conservatório - Praça das Artes
Teatro Municipal de São Paulo

domingo, 22 de setembro de 2013

ARTE COM SOTAQUE DO NORDESTE

À primeira vista, o ateliê de Aldemir Martins lembra uma feira-livre do Nordeste, com seu colorido, seu primitivismo pitoresco.  Aqui e ali, objetos dos mais variados – obedecendo a uma tônica: todos estão ligados à vida e às viagens de seu dono, um divulgador da arte brasileira por esses mundões afora.
Nascido no Ceará e lá criado, Aldemir traz hoje, em sua arte, sempre um quê do Nordeste – “coisas que estão no meu subconsciente, pois me criei lá e lá vivi até os vinte e dois anos”. Depois, o Sul: “Pois há vinte anos não existia a profissão de pintor. O artista era quase um marginal. No Ceará, era pior ainda. Então vim para o Sul: primeiro o Rio, onde passei um ano; depois, São Paulo”.
Entretanto o Nordeste, com sua força, deixou marcas indeléveis no artista: sua pintura, seu desenho ou sua gravura trazem sempre um pouco da paisagem nordestina, os cangaceiros, a beleza agreste da terra sempre tão seca e tão amada. “Minhas reações são nordestinas. Nota-se isso nos meus quadros: que estou preso à terra, que meu inconsciente está ainda nas coisas que vi e vivi durante a infância e a adolescência”.

O CANGACEIRO DA ARTE


“A princípio fui paisagista – sabe, aquela paisagem seca, com ingazeiros. Mas já comecei rompendo com o Acadêmico. Depois evoluí, mas não mudei de posição”. No Ceará ainda pintava a óleo; depois, por muito tempo ele ficou só nos desenhos e nas ilustrações; só agora, com a descoberta do acrílico, ao qual se adapta muito bem, retomou os pincéis.
Espalhados no meio de livros, enfeites nordestinos, máscaras africanas, sapatos de cangaceiros, estão seus quadros e seus desenhos. Ele já fez quase de tudo em matéria de Artes Plásticas: ilustrações, jóias, cenários, cerâmica. Agora pretende começar Escultura. Uma grande tela está sendo trabalhada. O tema: flores.
“Se eu não fosse pintor, seria vagabundo. Ou um cangaceiro. Isso, um cangaceiro: um revoltado contra o estado de coisas, um lutador. Eu já sou um lutador, só que não luto sozinho; luto com sequazes que talvez nem saibam que estão lutando: os artistas. Sim, a classe dos artistas luta muito”.
Ele sorri, muda de assunto: “Pois é, essas coisas todas eu trouxe de minha viagens. Não, não fui ver nada, não: fui mostrar. Não sou um viajante que nota muito a paisagem: me interessa muito a convivência humana. O que eu trouxe de minhas viagens está aqui, nessa desordem. Mas é que eu sou anti-militar por excelência: nada de ordem. As coisas ficam onde estão e como estão, numa desorganização arrumada. Ali, naquela estante, os livros que consegui sobre o cangaço. Eu precisava aprender tudo sobre os cangaceiros, inclusive roupagem, para fazer meus desenhos e ilustrações, então comprei todos os livros que encontrei que tratassem do assunto”.
Seus cangaceiros são famosos, mas não só eles: os galos, os peixes e muitos outros: “Sou de ter fases com paixões momentâneas sobre um assunto. Sempre, sempre trabalhei assim: posso esgotar e refazer o tema. Tive uma fase em que fiz dezoito retratos de Maria – a mulher imaginária, a mulher de todos nós. Em ilustrações, de que gosto muito, chego a estudar minuciosamente o texto que devo ilustrar. Procuro ser fiel à idéia do autor: para as ilustrações de ‘Os Sertões’ adquiri um livro raríssimo de botânica, no valor de NCr$ 400,00”.
 “Executar um quadro, eu executo com rapidez. Mas, antes disso, elaboro com lentidão, cuidadosamente. Ao contrário dos filhos – um pai sempre gosta deles – eu geralmente não gosto dos meus quadros. Para mim, eles são todos personagens, um mito que eu crio. Quando os começo, tenho em mente que aquele pode ser a minha obra-prima, ou o que todos considerarão assim”.

ARTE RUDE E REQUINTADA


Aldemir se considera socialmente extrovertido, mas na vida privada, calado e tranqüilo, “quase um sorumbático”. E na arte se retrata sua personalidade: “O que faço é sempre simples em temas, mas a linha é requintada, embora haja quem diga que o meu forte são as cores, que eu considero cruas. Minha arte, eu a sinto rude como as comidas nordestinas. Eu sou muito pretensioso. E indócil, como todos os artistas, que não gostam de seguir a trilha de todo mundo, querem um caminho diferente”.
“Nos temas, sou de grandes contradições: pinto flores e cangaceiros. Flores para alegrar a todos, felizes e infelizes; flores em todo lugar, não só nos jardins dos ricos. E assim se volta ao Sermão da Montanha: ‘Olhai os lírios do campo...’ ”.
Aldemir é o artista brasileiro mais conhecido no estrangeiro. E o primeiro artista genuinamente brasileiro a ser premiado pela Bienal: “Mas encaro isso como acidente. Pois é, lá estava a pedra, no meio do caminho, e eu dei a topada. Ou então, eu ia passando com os desenhos embaixo do braço (assim como a gente às vezes passa embaixo da escada de um pintor de paredes e recebe uns respingos de tinta) e o prêmio me caiu na cabeça. Não vejo nisso muitos méritos. Mas até hoje ninguém me perdoou por causa disso”.
“A Arte deve ter comunicação, mensagem, linguagem. É como fazer um bilhete ou carta, romance ou novela. O artista nasce e morre como todo mundo. Sua técnica permanece. Todos farão o que ele fez ou ele fez o que todos os outros fizeram. Com o tempo, a técnica assume sua personalidade. Algum dia, alguém olhará este quadro e dirá: Este é Aldemir Martins”.
“Arte é como o amor: ama-se. Não entendo porque se discute tanto Artes Plásticas. Assim o povo acaba conhecendo muito mais de ouvido que por ver. E um quadro é para ser visto. Artes Plásticas não se explicam com palavras: a imagem é fechada, misteriosa, esotérica. Olha-se e pronto, já se sente tudo. Os pincéis têm a força da baioneta”.

Revista Diário do Povo
Campinas, SP, 16 de março de 1969 – Ano I, nr. 2, p. 40-1

(Ilustrado com fotos de Léo Brilho)

domingo, 31 de março de 2013

CEM ANOS DE SINDICALISMO MUSICAL EM SÃO PAULO



Embora não tivesse o caráter político que norteou muitas das associações de classe dos trabalhadores, nos primeiros anos do século XX, o CENTRO MUSICAL DE SÃO PAULO, entidade criada em 1º. de março de 1913, por iniciativa do maestro Savino De Benedictis, manteve-se atuante durante quase cinqüenta anos. E atuando com sucesso, mesmo diante dos percalços que o país e o mundo enfrentaram nesse período. Mais que isso: frente a todas as mudanças que se deram no país, em relação aos trabalhadores, pôde continuar, através do Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado de São Paulo e da  Ordem dos Músicos do Brasil.

O Centro Musical do Rio de Janeiro, entidade criada em 1907 na então Capital da República, teve como primeiro presidente o maestro e compositor Francisco Braga. Eulícia Esteves, historiadora desta entidade, que teve acesso a muitos de seus documentos,  revela que o Decreto nr. 1.637, do presidente Affonso Penna, em 5.1.1907, na letra da lei havia criado os sindicatos e sociedades corporativas, mas na prática, os havia apenas sancionado, pois que então já existiam. 

Durante a gestão do biênio 1911-1912, da entidade carioca, consta que um ofício assinado por 64 músicos de São Paulo, solicitava a criação de uma sucursal do Centro Musical carioca em São Paulo. Isto não aconteceu, nesses termos. A criação do Centro Musical de São Paulo deu-se independentemente da do Rio.

Embora não esteja claramente estabelecido nos textos de um ou outro Centro Musical (Rio ou São Paulo), o título “professores”, dado aos sócios, a exigência de provas de instrumento ou conhecimentos teóricos, as atividades para as quais são estabelecidas as tabelas de pagamento, inferimos que ambas as associações se referiam sempre a músicos com formação minimamente formal, isto é, pessoas capazes de ler as partes e de tocar obras escritas para conjuntos musicais.

O primeiro presidente do Centro Musical de São Paulo foi Savino De Benedictis, que o organizou e fundou, ao lado de outros instrumentistas e professores, como ele. Por essa época, a vida musical de São Paulo, em sua vertente formal, tinha dois eixos: primeiro o Conservatório Dramático e Musical, fundado em 1904, e do qual Savino De Benedictis era professor de contraponto, harmonia, fuga e composição; e o Teatro Municipal de São Paulo, inaugurado em 1911.   

Sendo São Paulo uma cidade em franco crescimento, sobretudo pela implantação de indústrias, tinha um amplo mercado de trabalho para os músicos, pelo estabelecimento de diversas entidades que ofereciam inúmeras opções de lazer à população. Entre elas, os cafés-concerto, os teatros de variedades e principalmente os cinemas, que à época não tinham ainda espaços próprios, com acomodações convenientes, existindo muitas vezes em salas adaptadas. Mas a projeção cinematográfica exigia um acompanhamento musical, e isso ampliava as oportunidades dos músicos. Para evitar que os músicos contratados recebessem pagamentos indignos, os Estatutos dessa entidade estabeleciam uma Tabela com 19 itens subdivididos, especificando claramente a remuneração devida para cada função instrumental, por determinadas horas de trabalho.

Se levarmos em consideração que já no dia 1º. de abril de 1913 o Centro Musical de São Paulo promoveu uma greve de músicos, podemos inferir que os empregadores (ou contratadores de serviços) tinham se negado a cumprir as tabelas, rigorosas e precisas, mas muito justas. Levando-se em consideração que o músico “de fila” (como hoje são denominados os instrumentistas de orquestra) precisa estudar para manter a técnica; deve ensaiar com o grupo, para fazer um trabalho integrado; deve se apresentar vestido com traje social completo e impecável, e ainda faz uso de seu próprio instrumento, fica claro que a paga deve fazer jus a todas essas exigências, implícitas em sua contratação. 

A greve deve ter sido vitoriosa, pois o Centro Musical de São Paulo continuou na ativa, mesmo depois que o cinema ficou sonoro e gerou a dispensa em massa da categoria. Sobreviveu a duas guerras mundiais, e atravessou crises nacionais, como o Estado de sítio, no início dos anos 30, em que reuniões foram proibidas, e depois a Revolução Constitucionalista de 1932. Sofreu a concorrência do rádio e do disco, que mantinham postos de trabalho apenas para uma minoria...

Durante sua existência, o Centro Musical de São Paulo organizou seus próprios espetáculos e também deu suporte musical a eventos encomendados, entre os quais muitos do próprio Teatro Municipal, que alternava essas atividades com as da Sociedade de Concertos Sinfônicos, surgida em 1921 e que se manteve com assinaturas até fins da década de trinta. Em 1933, o Centro Musical estabeleceu assinaturas para sua própria orquestra, passando a se apresentar por conta própria no Teatro Municipal, e continuando a atender a demanda externa. Por exemplo, nos primeiros anos do Departamento de Cultura, mediante contrato de prestação de serviços, apresentava toda a programação musical, intensa e variada, idealizada por Mário de Andrade para atender o projeto de educação musical que o Departamento pretendia. Teve excelentes regentes e grandes solistas, e em sua programação sempre incluía obras de autores nacionais. Esta orquestra foi incorporada pela Prefeitura do Município de São Paulo através da Lei Municipal nr. 3.829, de 28.12.1949, com o nome de Orquestra Sinfônica Municipal.

O Centro Musical de São Paulo é, atualmente, o Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado de São Paulo, reconhecido por Carta Sindical do Ministério do Trabalho e Previdência Social em 1941, filiado à Federação dos Trabalhadores em Empresas de Difusão Cultural e Artística do Estado de São Paulo, sendo declarada entidade de utilidade pública pela Lei Estadual nr. 5.888, de 26.9.1960.

Merecidamente, o maestro e professor Savino De Benedictis recebeu o título de Sócio Honorário, em dezembro de 1934, por sua atuação junto à entidade que fundara. Em 1967 recebeu Troféu da Ordem dos Músicos do Brasil, entidade que, com o Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado de São Paulo, dava continuidade aos objetivos do Centro Musical de São Paulo.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

TOBIAS BARRETO - A MÚSICA E OS MÚSICOS EM SUA POESIA


Nascido em Campos, Sergipe, no dia 7 de junho de 1839, e falecido em Recife, Pernambuco, aos cinquenta anos, Tobias Barreto foi poeta, iniciando com Castro Alves a poesia condoreira, na qual o poeta bahiano destacou-se e se firmou, restando hoje como a figura proeminente do gênero. 

Tobias Barreto poeta se revela um grande admirador dos músicos, e consta que ele mesmo escrevia poesia e música, da mesma forma que hoje os compositores populares. Entre seus poemas, destacam-se inúmeros sobre músicos, Chopin, Cherubini, Liszt e ... (pasmem!) Arthur Napoleão, que passou para a história da música no Brasil quase que apenas como compositor e editor, além de ter dado aulas para a Maestrina Chiquinha Gonzaga, já  adulta, quando ela quis aperfeiçoar sua técnica pianística.
 
Arthur Napoleão dos Santos era português e apenas quatro anos mais novo que Tobias Barreto. Fez carreira como  pianista prodígio na Europa, apresentando-se   em diversos países, e veio ao Brasil aos 14 anos, ocasião em que Tobias Barreto deve tê-lo assistido, pois escreveu um longo poema, de 8 estrofes, em sua homenagem. Neste poema, ele diz coisas como: “Quantos anjos não quiseram/contigo trocar as mãos!” (...)  e, nos versos finais, “O teu piano é uma força/e o teu talento  uma lei”.

Não obstante sua grande admiração pelos músicos em geral e sua louvação ao piano, Tobias Barreto não parecia acreditar muito no interesse dos brasileiros por uma música mais fina. Pelo menos é o que revela seu poema

ANO BOM    

Era um claro salão. Moças brincavam
pela entrada feliz do novo ano.
Mãozinhas d’anjo saltitavam cândidas
sobre o teclado do ótimo piano.

Um sertanejo, que presente estava,
de rude trajo e sapatões de sola,
diz ao dono da casa em tom agreste:
“Capitão, mande vir uma viola...”

Hilaridade! O bruto continua:
“Não sei que graça tem o tal piano...”
E, volvendo-se às moças que o encaram:
“Vossas mercês não gostam do Bahiano?”

Gargalhada geral. “Como? Isto é sério?”
Replica o monstro que se erguendo avança
para as meninas e lhes diz convicto:
“Não duvidem; eu toco e tudo dança”.

Chega a viola, o único pecúlio
de um dos muitos escravos da fazenda,
mas falta o arame; manda-se um moleque
buscar depressa um carretel na venda.

Volta o emissário; a cousa está completa
e  o sertanejo  afina o instrumento;
começa o toque, um sétimo batido
no estilo bárbaro em que sopra o vento.

Ninguém resiste!... Ao som,  que sai do peito
da viola franzina e amarela,
os homens formam roda, e as próprias moças
não têm reservas e se metem nela...

Chovem as palmas, o baiano impera:
em círculo tão nobre um fato raro!...
Movimentos, requebros e trejeitos,
de que vergonha é natural reparo.

Mas nem todas, que dançam,  mostram queda
para o mister. Aquela  é desasada,
move o corpo sem graça e...coitadinha!...
nem sequer sabe dar uma umbigada!...

Porém a bela do piano...espanta!...
Pisada e porte de pessoa destra,
abre os braços, que mimo! O diabrete
saracoteia, como velha mestra.

A  loura coma esparsa!...Onde esta moça
já viu dançar-se ao toque da viola?
Pondo a língua entre os dentes, dá sorrindo
um estalo que finge castanhola!...

E o baiano prossegue, o fogo aumenta,
tudo ali se transforma em harmonia;
mas, por engano, topam no matuto
que termina e repete; “Eu não dizia?!...”

(Este ensaio é dedicado a meu primo, José Gomes de Lima, morador de Aracaju, cidade onde morou Tobias Barreto)


terça-feira, 27 de novembro de 2012

O PIANO, UM PIANO... TODOS OS PIANOS


É de Aníbal Machado (1894-1964) o conto O Piano, em que narra a saga de uma família de Ipanema, nos tempos da Segunda  Guerra Mundial, lutando para se desfazer de um bem recebido por herança.

“Custear o enxoval de Sara com a venda; transformar a saleta em quarto para o futuro casal – teriam que dispor dele de qualquer maneira”, é o projeto da família de João de Oliveira, que recebe inúmeros pretendentes á venda, anunciada previamente em jornais. Desde mães e filhas, negociantes, uma estudante com sua pasta de músicas, o professor, todos avaliam mal o piano, muito antigo, cujo toque provoca um acesso de latidos em Doli, a cachorrinha da casa.

O personagem principal, João, oscila entre a necessidade prática do momento e o sentimento em relação ao objeto: “Já não fazia questão do preço. Queria apenas que o seu piano fosse tratado com certa atenção.(...)O único móvel que falava da presença dos antepassados. Meio eterno. Ele e o oratório”. Nem quando o oferece a um parente, para que ele fique em família, tem sucesso. A mulher, Rosália, mais prática, mesmo com tristeza, se contrapõe à solução definitiva que ele encontra, diante da rejeição geral ao piano, a de atirá-lo ao mar. Mas até o carregador que ele contrata se recusa a atirá-lo, pois lhe parecia “um crime”.

É com os moleques da praia do Pinto e da Latolândia que ele consegue uma solução, ainda que tenha vindo em partes, como aos poucos se lhe arrancarem os metais, depois o tampo, e finalmente, ao atravessar a avenida da praia para chegar ao mar, motociclistas da polícia impedem o cortejo, pedindo-lhe documentos, depois sendo impedido de continuar por ter passado das dezoito horas.

À noite, quando cai uma tempestade, eles acordam e pensam no piano abandonado na praia. Depois, em um sono agitado, João de Oliveira, sonha com seu piano tocando tudo o que se havia tocado nele... “Uma porção de mãos, Rosália... Mãos diferentes de diversas mulheres. As de minha avó, as de minha mãe; as tuas; as de minhas tias, as de Sara. (...) Nunca ouvi músicas tão bonitas. Uma coisa sublime, Rosália. (...) De repente, os dedos se retiraram; ouviu-se a Marcha Fúnebre; o piano se fechou a si  mesmo ...tomou a enxurrada... deslizou para o oceano...”

No dia seguinte, se consuma o lançamento do piano ao mar. Diante da família já conformada, João se mantém ainda divagando sobre o fato, conjeturando: "Deve estar longe a estas horas. Sempre debaixo das águas... Passando por coisas estranhas. Destroços de navios. Submarinos. Peixe. Um móvel que nunca saiu desta sala...”

Depois é intimado a comparecer ao distrito policial, por suspeitarem que dentro do piano haveria uma estação de rádio clandestina, e mais tarde ainda a Capitania do Porto o procura para pedir satisfação do que atirou ao mar. Mas, depois de todos os transtornos, as duas ironias  que finalizam o conto: o noivo de Sara,  que lamenta não ter mais um piano, pois vive atormentado pelo ruído da artilharia, na qual trabalha.  E depois um comprador, que já havia visitado a casa, volta para lhe fazer uma proposta de compra...
SEREIA TOCANDO  PIANO...

O personagem João de Oliveira, apesar de toda a imensa poesia do contista Aníbal Machado, previu quase tudo o que o piano poderia encontrar no fundo do mar. Menos o que o olhar do poeta Cassiano Ricardo (1895-1974), contemporâneo do escritor, viu como possibilidade em seu belo conto: que o piano fosse encontrado por uma sereia, que o toca à noite.

Seu poema SEREIA TOCANDO PIANO, que tem como epígrafe “Eu vi as ondas engolirem-no”. (Aníbal Machado), apanha a sugestão do encontro do móvel -  ao qual ambos, contista e poeta, dão vida e sentimentos humanos -  com uma sereia. O poema, longo, versejado em décimas, com estrofes de nove versos, tem como refrão  “A sereia está tocando piano / tocando piano no fundo do mar”. A presença do refrão, que tem pequenas variantes, mas em essência afirma sempre   o toque da sereia, o transforma em canção – sem a música. Como o piano...

Cassiano Ricardo se demonstra condoído pela sorte do piano, tal e qual João de Oliveira, colocando em  um vocabulário romântico a expressão de seu  eu-lírico. Por muito longo, o poema não será transcrito,  apenas a última de suas oito estrofes:

               E – coisa que ninguém sabe explicar –
               Na sala onde os convivas se reúnem,
               Há a falta de alguém,  um lugar mudo,
               Onde o piano foi piano, o seu lugar.
               E ao ouvido da noiva um rumor surdo,
               Por mais que o evento lhe pareça absurdo,
               A todo instante chega, singular.
               É o piano que a sereia está tocando
   tocando  tocando no fundo do mar!

(Este pequeno ensaio é dedicado a Sergio de Nucci, em homenagem ao respeito que demonstra pelos bens materiais e imateriais de seus antepassados)