quarta-feira, 26 de setembro de 2012

CENTENÁRIO - POEMA SINFÔNICO


Com ensaios iniciados em 1921, o Poema Sinfônico CENTENÁRIO, que inaugurou  o Monumento do Ipiranga em 7 de setembro de 1922, tem um caráter heróico e apoteótico que se coaduna com o espírito do evento para o qual foi composto: o Centenário da Independência do Brasil. Escrito por Savino De Benedictis (1883-1971) para grande orquestra, banda, banda de clarins, cornetas e tambores e coral a 4 vozes (cantando também em uníssono), foi apresentado  sob a regência do maestro capitão Joaquim Antão Fernandes (1864-1949). Esta grande obra foi executada como apoteose do evento, iniciado às 8h45, no local onde o Príncipe D. Pedro proclamou a Independência. 

Com a presença do Dr. Washington Luís Pereira de Souza, Governador do Estado  e demais autoridades civis e militares, como  o Comandante da II a. Região Militar, Gal. Rondon, ouviu-se o Hino Nacional Brasileiro (música de Francisco Manoel da Silva, letra de Osório Duque Estrada). A seguir o Dr. Washington Luís cortou o fio que prendia a bandeira nacional e inaugurou o Monumento do Ipiranga. O Deputado Dr. Roberto Moreira fez um discurso, seguindo-se mais seis. Terminados os discursos, ouviu-se o Hino da Independência (música de D. Pedro e letra de Evaristo da Veiga), e finalmente Centenário - Poema Sinfônico.

Além de grande orquestra, constituída de 100 professores de São Paulo, a execução teve ainda a atuação da Banda da Força Pública e da Banda Giuseppe Verdi, de São Paulo; da Banda Carlos Gomes, de Araras; da Banda Carlos Gomes, de Jaú; da Banda Saltense, de Salto de Itu, da Banda Liberdade, de São Roque, de bandas de clarins, cornetas e tambores, ao todo mais de quinhentos instrumentistas.
A orquestra que se apresentou não é nominalmente identificada, mas, à época, muito dos grandes eventos da capital eram acompanhados pela orquestra do Centro Musical de São Paulo, entidade de classe fundada em 1913 pelo próprio Savino De Benedictis, autor da música Centenário. Podemos imaginar que fosse essa a orquestra a atuar nessa comemoração, pois era ela que fazia os concertos e a parte musical das óperas do Teatro Municipal e que mais tarde veio a ser incorporada ao próprio Teatro, como Corpo Estável.
A parte vocal foi executada pelos corais do Colégio Cristovão Colombo, do Instituto Da. Anna Rosa, da Sociedade Coral Benedetto Marcello e da Sociedade Coral da Cia. Lírica Nacional, em conjunto com soldados da Força Pública e 1.500 escoteiros, totalizando um coro de cerca de cinco mil vozes. Essas informações são de um recorte de jornal da época, infelizmente não identificado, em notícia do próprio dia 7 de setembro de 1922.

 O jornal O Estado de S. Paulo de 7 de setembro de 1972, ano do sesquicentenário da Independência, acrescenta muitos detalhes a estas informações. Por exemplo, que quando a execução do Poema Sinfônico Centenário terminou, a comitiva de autoridades dirigiu-se ao Museu Paulista, onde o Governador inaugurou novas salas e as duas estátuas dos bandeirantes Raposo Tavares e Fernão Dias Paes, feitas por Luís Brizzollara por encomenda do diretor do Museu, o historiador Affonso d’Escragnolle Taunay.

POESIA E MÚSICA

A música do Poema Sinfônico Centenário se inspira em texto de Francisco Roca Dordal. Tanto a partitura de orquestra quanto a de banda têm como epígrafe, ao iniciar-se cada trecho musical, as primeiras palavras de cada trecho escrito por Roca Dordal. Desse modo, o Andante sostenuto, que abre a peça em 3/2, traz o texto “É a hora da prece e da poesia; da tarde a agonia...” Este trecho, denominado Meditação de D. Pedro, é um tema simples, orquestrado com muito equilíbrio, de modo a manter um espírito de meditação, melancolia e até certa angústia. Em seus últimos compassos, ouvem-se os sinos tocando 4 horas da manhã, com fundo de clarinetas e violas (o autor indica que os sinos devem estar na torre, à distância).

A seguir um trecho coral, a quatro vozes, cantando versos de Henrique de Macedo (1880-1944), poeta de Jacareí, SP. O jornal O Estado de S. Paulo, de 4 de maio de 1921, anuncia a edição do poema sinfônico, mas na verdade foi publicada apenas a parte coral, o restante permanece em manuscrito até esta data.
A orquestração cresce com os versos, mas a intensidade vai diminuindo e alargando até ralentar. Começa o 2º Movimento, denominado Alvorada, Più mosso (mais movido), em 3/4, seguindo a epígrafe “Ei-la a surgir... Tênue, fraca luz envolve a terra”. Este movimento apresenta mais mudanças de dinâmica e de colorido que o anterior. 

Novamente o sino da torre soa cinco horas. Aurora! A orquestra cresce, chegando a “tutti”, e depois de gradativamente ir-se reduzindo, segue o texto “Rompe o sol. Em gargalhar de luz, de calor e de alegria desperta a vida!”. Escrita em 6/8, esta seção é mais alegre. Tem desenhos rítmicos bem marcados, uma corneta que toca ao longe, e a orquestração em cordas e madeiras é muito intensa, mas logo é reduzida; o movimento também se reduz e novamente a orquestração se intensifica, a orquestra toca em “tutti” por 18 compassos. Muda então para 2/4, que é um tempo de marcha, e começa o trecho intitulado Cavalgada. “Caminham os corcéis sobre o macio tapiz”, em Allegro vivacissimo. O som da cavalgada é feito pelos tímpanos, contrapondo-se aos clarinetes, fagotes, violas, violoncelos e contrabaixos.

Entra o Hino Português, apresentado pelos trompetes em 7 compassos. A seguir os trombones apresentam o Hino da Independência, sempre crescendo. Chegando ao fortíssimo, o tema do Hino é parafraseado e a sonoridade fica bem menos intensa, para depois crescer, enquanto entram os instrumentos de percussão e o coro canta em uníssono a primeira estrofe do Hino da Independência, prolongando os versos finais.
O fechamento da obra, entretanto, está no próprio Hino do Centenário: ”Quer ser livre a nação e diz Fico (...)”  agora cantado em uníssono, e em 2/4. Quando a última frase é cantada, violinos e violas fazem, também em uníssono, escalas ascendentes rapidíssimas, até o acorde final, sustentado até terminar o toque de cornetas que arremata a obra. 

OUTRAS  APRESENTAÇÕES 

Este mesmo poema sinfônico (que melhor seria chamar de Poema Coral-Sinfônico) contou com diversas apresentações em São Paulo: inaugurou em 1940, sob regência do maestro Armando Belardi, o Estádio do Pacaembu, hoje chamado Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho. Na versão para banda e coro, faz parte do repertório da Banda Sinfônica da Polícia Militar do Estado de São Paulo e é frequentemente reapresentado. Foi executado também no dia 12 de dezembro de 1983, por ocasião do encerramento das comemorações do centenário de nascimento de Savino De Benedictis, com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, gentilmente cedida por seu titular, maestro Eleazar de Carvalho, para a competente e brilhante regência do maestro Silvio Baccarelli, ex-aluno de Savino De Benedictis. O Coral Baccarelli executou a parte vocal desse belo espetáculo de encerramento, apresentado  no Teatro Cultura Artística.
O jornal O Combate, de 7 de setembro de 1922, publicou comentário acerca da obra, escrito por João Sepe, ex-aluno de Savino De Benedictis, onde diz, com acerto, que a obra segue os preceitos da música programática estabelecidos por Hector Berlioz (1803-1869), quando criou a Sinfonia Fantástica. Note-se que este compositor francês, em 1840, organizou um concerto em homenagem ao décimo aniversário da revolução de 1830 (na França), utilizando um efetivo orquestral e coral grande como este do nosso Centenário, dada a natureza do evento que homenageava. 

Um  outro jornal que traz comentários muito interessantes acerca da obra é o Jornal do Commercio, de Jahu, datado de 18 de novembro de 1922, que anuncia apresentação da obra Centenário para as comemorações de 15 de novembro, em frente à Igreja Matriz da cidade. A notícia posterior ao concerto informa que este foi realizado pela Banda Carlos Gomes, sob regência do maestro Heitor Azzi. Na ocasião foram aproveitados os degraus e a torre da igreja, para as salvas e os clarins. No início do canto, os alunos de escolas locais gritaram “Independência ou Morte” e 1800 alunos cantaram o Hino do Centenário, seguido do Hino dos Escoteiros, composto pelo capitão maestro Joaquim Antão Fernandes.

A comemoração de 15 de novembro em São Paulo, no ano de 1922, contou com o 11º.  concerto da Sociedade de Concertos Sinfônicos, no Teatro Municipal, em programa regido pelo maestro Torquato Amore frente à orquestra dessa Sociedade, iniciado pela Sinfonia nr. 1 de Beethoven e encerrado com o Poema Sinfônico Centenário.

ASPECTOS  LITERÁRIOS

Os textos literários, de diferentes autores, que se somam para integralizar o conjunto desta obra, são: o primeiro, em prosa, de autoria do Prof. Francisco Roca Dordal, que é o programa da peça, foi provavelmente escrito especialmente para a ocasião. O Prof. Francisco Roca Dordal é personagem sobre o qual não conseguimos informações. Sabemos apenas que o Terceiro Grupo Escolar Modelo do Brás mudou de nome em 2.12.1938 para Grupo Escolar  Rocca Dordal; em 28.1.1976 foi fundido com o Instituto de Educação Padre Anchieta, para constituir a Escola Estadual de 1º. e 2º. Graus Padre Anchieta.  O segundo texto, em versos cantados no Hino que finaliza o poema sinfônico, autoria do escritor Henrique de Macedo, não constam do livro de poemas que este autor publicou em 1924, Nova primavera, não havendo informação sobre sua procedência.

Ambos são escritores de forte influência parnasiana ou romântica. Parnasiana pelo  aporte formal e romântica pela escolha de temas nacionalistas, com citações de cultura clássica. 

Em jornal não identificado, de 3 de setembro de 1922, o próprio compositor descreve sua obra:
“Meditação – O príncipe regente, mergulhado em íntimos pensamentos. Rompe a aurora. Começa uma fuga, pianíssimo, intensificando-se, com a entrada de clarins e cornetas, que anunciam o despontar da alvorada, num crescendo. Pássaros gorgeiam, o Ypiranga marulha docemente. Avolumam-se os ruídos e sonoridades do dia que se estende prateando os outeiros formosos de Piratininga.

Cavalgada – Estrupidos de corcéis em disparada ressoam na vastidão dos campos. Aproxima-se a escolta luzida e galharda do príncipe. No arruído se distinguem as notas do Hino Português. Iniciam-se, porém, as ardentes estrofes do Hino de D. Pedro que, pouco a pouco avultando-se, funde-se com o Hino da Metrópole, assoberba-o, domina-o, apaga-o.

Apoteose – É o momento em que rompe o coro apoteótico da Independência. Erguer-se-ão as vozes de 3000 soldados, 1500 escoteiros, mais de 1000 alunos de escolas e sociedades corais, como sejam os do Instituto D. Anna Rosa, Christovam Colombo, Sociedade Coral Benedetto Marcello e coro da Companhia Nacional de Óperas Líricas, dirigido pelo maestro Alessio, e outras. Será um momento de intensa emoção e de deslumbrante entusiasmo popular”.

Mas há um outro texto, talvez inédito, de punho do maestro capitão Joaquim Antão Fernandes, autoridade designada pelo Governo do Estado de São Paulo para organizar essa solenidade. Escrito com simplicidade, mas com apuro, nele este mestre, que foi o regente da obra em pauta, descreve o momento e a emoção das comemorações dessa data: “Dia 7 de setembro de 1922. O Brasil com cem anos de independência. O dia de maior glória em toda minha vida pública. Por ordem do governo organizei o concerto nas margens históricas do Ypiranga, em frente ao monumento. Elenco de grande orquestra. Sob a minha regência a Banda da Força Pública, mais quatro bandas do interior, a banda de clarins (a cavalo), bandas de cornetas e tambores, quatro mil escolares, mais ou menos, e quinhentos soldados, executaram o Hino Nacional Brasileiro e o belíssimo poema sinfônico “O Centenário”, escrito, a meu pedido, pelo maestro Savino De Benedictis, letra de Henrique de Macedo, para comemorar o primeiro centenário. Do estrado da regência olhei a multidão cobrindo as dependências do local. O silencio imperava. Os músicos, os cantores, o povo, tinham presa a atenção na minha batuta. Levantei-a, o Hino da Pátria fez-se ouvir nos seus primeiros compassos e depois perto de cinco mil vozes juvenis inundaram de sons o Ypiranga. Eu, o caipira de Batataes, que a pé me aventurara pelo mundo, era o autor daquele feito, que me honrou como musico e como brasileiro”.
 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O MONUMENTO DO IPIRANGA, INAUGURADO HÁ NOVENTA ANOS


1922 foi um ano marcante para os brasileiros e sobretudo para os paulistas. Há apenas um lustro do final da Primeira Grande Guerra, todos os olhares se voltavam para o futuro e simultaneamente para o passado. A República, proclamada há 33 anos e já consolidada, procurava caminhos, entre militares e civis. Muitos remanescentes das lutas pós-proclamação da República ainda estavam vivos e defendiam seus pontos de vista de maneira incisiva e inflamada.

Construir o Monumento do Ipiranga foi o passo mais concreto rumo a uma identidade brasileira, que uma situação de pós-guerra exigia.  Em complemento à excelente reportagem “Um italiano às margens do Ipiranga”, escrita pelo jornalista Luiz Quesada na publicação Cultura Dia-a-Dia, nr. 38, setembro de 2004,  a origem do Monumento é esclarecida com detalhes. Segundo o texto, apesar da oposição dos intelectuais nacionalistas, que queriam um vencedor brasileiro, o concurso criado pelo Governo do Estado em 1917 para criação do Monumento foi vencido pelo italiano Ettore Ximenes, e, não havendo nele referências diretas à história da nossa independência, mais tarde acrescentaram-se elementos remetendo a movimentos independentistas anteriores ao Grito do Ipiranga.

A festa dos cem anos da Independência do Brasil, com inauguração do Monumento, em 1922, foi uma grande festa, à qual compareceu grande parte da população da cidade, e se deu com a música composta especialmente para a ocasião por Savino De Benedictis, músico nascido na Itália e radicado em São Paulo desde a juventude. Em uma época em que os sistemas de amplificação e gravação ainda estavam em seus primórdios, a massa sonora preparada para o evento constou de mais de seis mil vozes, grande orquestra e banda, além de formação de clarins que se fizeram ouvir na esplanada frente ao Museu do Ipiranga.

Centenário - poema sinfônico, foi composto especialmente para a celebração da efeméride. Dura cerca de 12 minutos e tem quatro movimentos: Meditação de Dom Pedro, Alvorada, Cavalgada e Hino. As seis mil vozes mencionadas (este total é citado pelo jornal Diário Popular)  cantaram em uníssono o último movimento, cuja música foi composta sobre texto de Henrique de Macedo, poeta, cronista, jornalista, médico e advogado, nascido em Jacareí em 1880 e falecido em São Paulo em 1944. O texto de H. de Macedo é relativamente curto: ”Quer ser livre a nação e diz Fico / o Monarca integérrimo e forte / que há cem anos bradou deste pico /a sentença de luz: Livre ou morte! / Salve, salve, salve Ipiranga, ó colina / que há cem anos serviu de Tabor / para um povo a cadeia ferina / transformar num eterno fulgor / num eterno fulgor!”.

O maestro Savino De Benedictis, nascido em Bari, Itália, em 1883 e falecido em São Paulo, SP, em 1971, foi professor, regente, compositor e musicógrafo. As linhas melódicas  por ele desenvolvidas para cada movimento do poema sinfônico têm a grandiosidade que o tema exigiu, e transformou a obra que escreveu em um verdadeiro  monumento musical. 

Essa celebração, que hoje tem noventa anos, merece ser lembrada por seu significado e ineditismo, principalmente porque sinaliza a importância de São Paulo no momento em que demonstrava a pujança que mais tarde a colocaria entre as maiores cidades do mundo, e a transformaria na Capital econômica e financeira do país.  

quarta-feira, 25 de julho de 2012

FARMÁCIA MERCER, DE TIBAGI, PARANÁ

Minha infância, no Norte do Paraná, foi pontuada por viagens em direção a Curitiba, em roteiros que não sei  especificar, pois crianças não prestam atenção a essas coisas. Sei que, até um dado momento, sempre que viajávamos, meu pai sempre fazia uma “parada” que me era muito agradável: a Farmácia Mercer, em Tibagi.


Junto à farmácia morava a família de minha tia Edith Mercer Gonçalves, casada com meu tio Evaldo Gonçalves, hoje o último remanescente vivo daquela geração. Quando eu via o rio, sabia que estávamos chegando na cidade,  onde nosso ponto era a Farmácia Mercer, e onde éramos recebidos com muito carinho. Lembro-me do Sr. Aroldo, a quem eu admirava muito, desde que soube que ele conhecia bem o Latim – se não me engano, era professor dessa matéria, quando ela constava do curriculum escolar. Lembro-me também muito da Sra. Maria Mercer, a quem continuei vendo até os anos 80, pois ela vinha a São Paulo, com Tia Edith, e as duas irmãs faziam questão de me visitar. Eu admirava muito o trabalho de frivoleté, uma renda de origem francesa, na qual as irmãs eram mestras. Devo confessar que consegui aprender um pouco de latim, mas ainda não consegui aprender frivoleté...

Naquela época, eu me encantava com o aspecto antigo da cidade de Tibagi, afinal tão perto de uma região recentemente colonizada, o hoje chamado Norte Pioneiro, onde nasci.Minha cidade  natal, Cambé, hoje parte da Grande Londrina, crescia visivelmente, dá para ver sua expansão a partir das fotos de minha infância, as casas surgindo ao redor da nossa, do meu primeiro para segundo, terceiro, quarto ano de vida...  Aos meus olhos de criança, Tibagi me parecia que tinha estado sempre ali, que sua praça central teria sempre as árvores do mesmo jeito, que seu silêncio harmonioso jamais seria quebrado e que todas as senhoras da cidade tinham como principal atividade fazer frivoleté.

Em maio deste ano, 2012, fomos comemorar os noventa anos do tio Evaldo, e encontrei lá os Mercer da minha geração, a convite dos Mercer Gonçalves, que são meus primos. Conversa vai, conversa vem, alguém contou que a Farmácia Mercer completa neste ano seu primeiro centenário  de atividade, sempre com a mesma família. O Sr. Leopoldo  Mercer, patriarca deste ramo, foi o primeiro, e além de farmacêutico, seguiu a carreira política; foi sucedido por seu filho Dr. Douglas, de quem me lembro, e que faleceu novo, deixando a responsabilidade de continuar a farmácia com sua viúva, Sra. Querubina, de quem eu me lembrava e que tive o prazer de reencontrar. Seu filho Dr. Luis Tadeu, que me  deu mais detalhes da farmácia  para este texto, é o atual titular, e criou um laboratório de Análises Clínicas na cidade.Ele já prepara a sucessão, para seu filho Dr. Luís Felipe.

Ao voltar para São Paulo, no exemplar de maio do Aeroporto Jornal, achei uma reportagem que informa que Tibagi tem cerca de 270 anos de fundação, 140 de emancipação política   (mais ou menos quando a família Mercer mudou-se para lá), que surgiu da atividade de garimpo de diamante, e que sua história  se materializa  através de 2 Museus. Além disso, desde 1992 cultiva o turismo, no seu Parque Estadual do Guartelá, onde está parte do canyon  do rio Iapó, sexto maior do mundo em extensão . Além disso, apresenta pinturas rupestres feitas pelos Caingangues, etnia indígena que habitava o local.

    Certamente a Tibagi de hoje não é tão pequena e silenciosa como a que eu conheci. Cresceu, tem novos ares, é cidade turística. Hoje ninguém estuda latim, suponho que ninguém mais faz frivoleté, e imagino que mesmo as cidades do interior sejam sonorizadas a ponto de não haver mais silêncio que se preze em lugar algum. Mas, sem  em  Tibagi existe uma coisa tão rara quanto uma família que se dedica há cem anos a manter a tradição, pode ser que lá se encontre ainda um refúgio de sossego e tranquilidade, coisas que os grandes centros perderam e talvez não recuperem jamais. 

domingo, 27 de maio de 2012

AFRICANIDADE E ENSINO DA LITERATURA

“Como neutralizar a influência negativa da literatura escrita antes dos novos conceitos de cidadania se estenderem a todos os cidadãos?”

Veio uma vizinha pedir um livro emprestado. Eu o tenho, portanto, emprestei, já que é uma menina a quem posso emprestar com a certeza de que terei o livro devolvido e em boas condições. Ela tem apenas onze anos e estuda com muito afinco: faz questão de aprender.

Mas uma coisa me intrigou: para que fins ela está lendo As aventuras de Tom Sawyer, do norte-americano Mark Twain? Fui até a casa dela para perguntar. E  a resposta era justamente a que eu suspeitava e temia. Ela é aluna da sexta série e vai ler o livro para um trabalho de Língua Portuguesa. 

Mas, em Língua Portuguesa, os alunos não deveriam ler livros escritos originalmente em Língua Portuguesa? Qualquer pessoa de bom senso perguntaria isto. E por diversas razões.

Em primeiro lugar, entra a questão da própria linguagem. Um livro como este tem diversas traduções – o meu é traduzido por Monteiro Lobato (Editora Brasiliense), com algumas intervenções pessoais no texto, mas é muito bem escrito. Não li em outras traduções, mas tenho também um exemplar com tradução de Alfredo Ferreira (Editora Vecchi). Hipoteticamente falando, podemos ter traduções menos qualificadas que estas, e até versões condensadas.

Em segundo lugar, o livro mostra a realidade de um outro povo, em outra época. A literatura, afinal, é o espelho do país onde é criada. Nós, brasileiros, temos “espelhos” literários de excelente qualidade, alguns escritos recentemente, falando de nossa realidade como ela é, neste século. 

As aventuras de Tom Sawyer é um livro escrito no século dezenove (publicado em 1876) e narrando fatos de pelo menos trinta anos antes, da infância do autor. Assim, ele se reporta a uma conjuntura social radicalmente diferente da nossa. É um ambiente de país escravocrata (como o nosso, aliás, também foi) onde o preconceito foi e é mais acirrado do que aqui no Brasil. Esse livro não se limita a descrever a situação do negro de uma forma perversa, embora corresponda à realidade daquela época, mas também tem o índio (Injun Joe) como o bandido da região. Em resumo, é um clássico da literatura infanto-juvenil, mas deve ser lido com espírito crítico, coisa que uma criança de onze ou doze anos ainda não tem. E que provavelmente  nunca terá, se continuar a estudar em uma escola onde esses critérios (ou falta de critérios) são mantidos.
Mas o pior de tudo é que, sendo uma escola pública, provavelmente muitos alunos afrodescendentes estudam nela. Como fica a auto-estima dessas crianças? Quantas e que espécie de brincadeiras agressivas podem ser feitas pelos colegas, atingindo os afrodescendentes, com base no texto deste livro? E, mesmo se ninguém falar nada, como será o sentimento de humilhação dessas crianças, diante de um texto com esses elementos, explícitos ou subjacentes?

Quando minha filha mais velha ia à escola, aprendeu uma música profundamente racista e eu escrevi uma carta reclamando. A música foi abolida do programa da escola. Mas, o que ainda hoje lamento, é ter constatado que aquela mensagem racista nem sequer tinha sido percebida pela equipe da escola.

Espero sinceramente que alguém faça alguma coisa quanto à presença do racismo nos textos escolares. Ou vou me sentir não só lamentando, mas também revoltada com a percepção de que a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo permite, endossa e releva uma distorção desse nível, por puro descaso. Ou por falta de percepção da realidade subjacente naquilo que se propõe a ensinar.

Em 24.5.2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

ANTONIETTA E MENOTTI – UMA HISTÓRIA DE AMOR

Uma figura digna de todos os elogios que recebeu: esta era Antonietta Telles Rudge, pianista paulistana. Reconhecida no Brasil e na Europa como grande intérprete de Chopin e Beethoven. Atuou também como camerista, e criou em 1915 o primeiro Trio Feminino brasileiro, com Paulina d’Ambrosio e Brasiliana Bormann. Casou-se com Charles Miller, introdutor do futebol no Brasil, e tiveram uma filha, Helena Rudge Miller.

O poeta Emílio de Menezes (1866-1918) dedicou-lhe, no livro Últimas rimas, de 1917, um soneto em que fala da pianista como artista e como mãe:

À Senhora Antonietta Rudge Miller

Ser mulher e ser mãe dentro de um sonho de arte
Que, aureolando a virtude e engrandecendo o amor,
Deixa aquela integral quando este se biparte
Ante o casto recesso e ante a pompa exterior.

Eis o que faz querer-te, eis o que faz amar-te,
Alma indômita entregue ao pulso domador
Que a amplia, que a desdobra e a leva a toda parte
Da intérprete, a certeza e, do gênio, o esplendor.

Jamais mão feminina, entre as róseas falanges
Reuniu tanto poder, tanta fascinação
Como essa com que os sons infinitos abranges.

Guaie sutil o vento ou ruja o furacão,
Louco esbraveje o mar, ou meigo gema o Ganges,
Tens o eco universal dentro de cada mão!...

Mais tarde, a vida separou Antonietta e Charles. Ela permaneceu com a filha e, tempos depois, passou a viver com o poeta, escritor e jornalista Paulo Menotti Del Picchia. Ambos formavam um casal unido e harmonioso, e permaneceram junto até que ela faleceu, em 1974. A filha de Antonietta, Helena, cuidou do padrasto até que também ele se foi.

Próxima à residência de ambos, na Avenida Brasil, quase esquina com a Avenida Rebouças, mais precisamente na Praça Portugal, foi erigida uma herma com o busto da grande pianista brasileira.

Nos anos oitenta, alguém comentou comigo que, todas as manhãs, bem cedo, antes que começasse o movimento da cidade, Menotti se acercava da herma e lá permanecia, por um bom tempo, de cabeça baixa, com o chapéu na mão, como se estivesse conversando com Antonietta. Então, em homenagem a esse grande amor, escrevi em 1993 um poema que relata este fato e dediquei-o a meu companheiro Sergio de Nucci, que havia conhecido o poeta:

Soneto

É São Paulo ou Verona? Medioevo
Ou a idade agressiva dos ruídos?
Silêncio nos jardins adormecidos...
Nem prédios nem veículos têm relevo.

Vulto pálido, branca cabeleira,
Lento mas firme esgarça névoa e tempo,
Para encontrar, num rápido momento,
A paixão que valeu a vida inteira.

Para leste, crepita o dia urgente;
O movimento cresce. Bulha. Agito.
Só o vulto em prata sequer se inquieta.

Pouco lhe importam os traços do presente.
Digno, firme, distante e convicto,
Menotti vela a herma de Antonietta.

sábado, 7 de janeiro de 2012

IL MONDO ALLA ROVERSA o sia LE DONNE CHE COMANDANO

Este é o título de um “drama bernesco per musica di Polisseno Fegejo Pastor Arcade (Carlo Goldoni) e Baldassare Galuppi, detto Il Buranello”, que Gian Giuseppe Bernardi comenta na revista Musica d´Oggi, ano XVI, nr 6, junho de 1934, p.206-209.

A parceria entre Carlo Goldoni, poeta, e Baldassare Galuppi, músico, começou em Veneza, em 1740, com a produção de óperas sérias. Depois Goldoni viajou por outros reinos italianos, retornando a Veneza em 1758, com a companhia Medebac. O trabalho conjunto da dupla recomeçou no ano teatral de 1750, com quatro óperas, entre as quais Il mondo alla roversa, ópera bufa. Esta é uma comédia satírica, arguta, na qual eles miram o predomínio das mulheres na vida social da época.

O argumento é mais ou menos o seguinte: em uma ilha dos antípodas, as mulheres fundam um reino matriarcal, onde os homens são escravos sem correntes, escravos voluntários do amor,e cuidam da horta, da cozinha, da roca etc. Servem também de animais atrelados ao carro triunfal das rainhas. Estas têm, cada qual, seu escravo predileto: Cinzia, Giacintino; Tullia, Rinaldino; Aurora, Graziosino.

Por motivo de ciúmes, surge a idéia de mudar a forma de governo para monarquia, com uma só rainha absoluta. Enquanto se organizam as eleições, chega à ilha uma barca de novos escravos, entre os quais Ferramonte, que vem com a finalidade de envergonhar os “profanadores do decoro” e induzi-los a retomar a “qualidade natural de patrões”. Assim, cada rainha cede sua parte de comando a seu favorito, dizendo: “Pietà, pietà di noi – Voi siete tanti eroi”, e o coro responde: “Le donne che comandano / è Il mondo Allá roversa / Che mai non durerà”.

A ópera segue a forma tradicional, e a música sempre se adapta à ação. O exemplo mais significativo está na ária de Graziosino, namorado de Aurora, que é encarregado por esta de derrubar a odiada rival, Cinzia, recebendo para isto uma espada. Mas Graziosino é um homenzinho tímido, e Cinzia, uma mulher feroz. Que situação difícil! Desobedecer Aurora ou enfrentar Cinzia? A ária demonstra às mil maravilhas o cômico contraste entre os dois medos que se enfrentam no ânimo do Herói. Este, depois de consultar-se longamente, toma a decisão:“Io mostrerò bravura / Sintanto che potro / Ma quando avrò paura / Allora fuggirò...”

Não menos interessante é a edulcorada declaração de amor de Aurora a Graziosino, toda de trilos e grupetos. Aliás, a tessitura das vozes, os excessivos vocalizes, trilos, mordentes e grupetos, como a música da época exigia, faz eriçar os cabelos dos cantores de nosso tempo.

Il mondo alla roversa é uma bela ópera, que mereceu o sucesso obtido: estreou no Teatro San Cassiano em 1750, foi reprisada no Teatro San Samuel no carnaval de 1753 e depois teve récitas em Milão, Turim, Cittadella, Dresden, Hamburgo, Modena, Bolonha, Bassano e Mônaco.

Mas hoje em dia...diante de Dilmas, Angelas, Cristinas e outras, alguém ainda ousaria dizer que, com as mulheres no comando, o mundo está de pernas para o ar?