quinta-feira, 10 de julho de 2014

AS MUITAS TAÇAS QUE PRECISAMOS GANHAR



O Brasil perdeu o jogo para a Alemanha. E perdeu também a esperança de um hexacampeonato mundial, nesta Copa.

Temos perdido muitas partidas, ao longo do tempo – vamos resumir para o nosso tempo de República, já que Colônia e Império foram outras estruturas. Ao longo de nossa República, que já tem 125 anos, fomos gradativamente deixando de preparar jogadores e treinadores para o grande jogo da modernidade e da cidadania. 

Por exemplo, mudamos a estrutura do ensino diversas vezes, mas não alfabetizamos toda a população. Isto é, na República, apesar da inspiração positivista e da citação constante dos seus filósofos, ficamos no plano do discurso, sem colocar as palavras em prática. Em um Dicionário Enciclopédico, achei um artigo constitucional da década de 1870, quer dizer, do tempo de Pedro II, que estabelecia educação para todos. Só não dizia para quando.

Outro exemplo: na saúde, tivemos um embate no mínimo vergonhoso, há cerca de um ano, quando os médicos brasileiros se rebelaram com a chegada dos médicos estrangeiros, principalmente os cubanos. Não por razões que talvez fossem razoáveis, e que existem, mas por razões pífias (que ouvi pessoalmente), além da argumentação puramente individualista. Como se não houvesse um compromisso da medicina com a sociedade que ela deve atender, mas apenas com o status e a conta bancária.  Fiquei com muita vontade de perguntar se o Juramento de Hipócrates foi abolido...

A batalha contra as drogas é outra que precisamos vencer. Há anos assistimos cenas visando a mídia, de viciados sendo recolhidos para lugar nenhum. Hoje, muitas ações que provavelmente não atingem toda a população drogada, mas dão oportunidade àqueles que querem se libertar da dependência, são confrontadas por profissionais e políticos que certamente não acreditam no ser humano – o ser humano, essa enorme caixa de surpresas, onde, por vezes, no mais fragilizado, se ergue uma força inesperada, capaz de achar dentro de si a luz perdida da esperança...

E, por último, o mais importante: precisamos ganhar a grande partida da distribuição mais justa das riquezas que o país produz. Todas as iniciativas nesse sentido são amplamente combatidas – multidões de brasileiros se postam diante da trave, para impedir que se faça esse importantíssimo gol em favor de toda nossa população. Sim, pois havendo uma melhor distribuição de renda, com mais pessoas recebendo de forma digna, o dinheiro é gasto dentro do próprio país, fortalecendo a economia de cada região.

Faltou muita coisa importante neste texto: moradia para todos, combate ao preconceito, segurança à população, defesa do meio-ambiente, saneamento básico, fim da violência, nova legislação tributária, demarcação de terras indígenas etc. Citei apenas o que é mais óbvio. 

Mas os brasileiros são muito inteligentes. E cada um poderá escolher, e erguer como bandeira, a batalha que nos fará vencedores de todas as partidas que precisamos enfrentar, para viver em um país melhor. Se conseguirmos chegar a um posto mais alto em qualidade de vida, e manter este posto, já teremos vencido a mais importante de todas as barreiras: a do respeito próprio. E do respeito por nossos compatriotas.
Essa é a melhor taça que poderemos conquistar.

domingo, 30 de março de 2014

ARTE E SOCIEDADE - UMA LEITURA POSSÍVEL



O artista é aquele que tem diante de si um grande espelho. Um espelho que reflete o mundo que o rodeia, na realidade do presente, na memória do passado, da virtualidade do futuro. o espelho  converte essa realidade em perspectiva pessoal do artista, pois  mantém   inevitável simbiose com aquele ser humano sensível que se posta em sua frente.

O  mundo ali se reflete inalterado em seu conteúdo, mas altamente alterável em sua forma, seja  qual for o meio de expressão: artes plásticas, música, literatura, artes cênicas, dança. E é isso que o artista faz: altera a forma, mantendo sempre visível e identificável o conteúdo. Viajante do tempo e do espaço, ele singulariza sua obra de modo a tê-la, através dos traços que lhe destina, ligada ao momento histórico em que ela tomou sua forma, nasceu, tornou-se  “algo” – uma obra de arte.

Diante de cada um desses espelhos, de cada um desses artistas, diante de cada obra, a sociedade reage de acordo com o que sua própria sensibilidade  lhe dita: aceitação, negação, indiferença. Não basta o choque da originalidade, nem a perfeição da feitura, nem as palavras que expliquem o artista e a obra de arte. Entre milhões de criações artísticas, estonteado e surpreso com aquele todo diversificado e enorme universo que se lhe oferece à escolha e ao aplauso, a sociedade sempre elege os que a representam. E essas obras mais representativas são sempre aquelas    em que o olhar do  artista, diante de seu espelho, seduzido e envolvido pelo conteúdo que pode reconstruir, escolhe a forma em que, escondido, está seu próprio reflexo.

sexta-feira, 7 de março de 2014

JUANA DE IBARBOUROU (1892-1979)



É  bem adequado comemorar o Dia Internacional da Mulher falando de uma grande poetisa nascida justamente nesta data: 8 de março. De 1892.

É o caso de Juana de Ibarbourou, poetisa uruguaia de reconhecimento internacional, que em 2014 completa 35 anos de seu passamento.

Seria maravilhoso falar dela através de sua poesia. Poder trazer e até traduzir muito da poderosa beleza que ela transmitiu em seus versos. Apesar de que seria bem difícil escolher um, dois ou  mais poemas,  que a representassem em sua fulgurante alegria de viver, tantos e tão bons são todos eles.

Mas mudei meu enfoque, pelo menos por ora. Sou obrigada, diante do que tenho lido e ouvido, da boca e da pena de seus compatriotas, a questionar os valores em que se embasam seus detratores – valores que não  são os de pura análise e/ou conhecimento literário, mas valores embasados em julgamentos morais.

E o mais  lamentável  é que as alegações em que se baseiam não têm grande peso e nenhum significado. Fábrica de alas (Fábrica de asas) é um texto de 15 páginas (137 a 152), em cópia Xerox, possivelmente de um dicionário, que recebi de um uruguaio que não se conformou com meu entusiasmo diante da poesia maravilhosa de Juana. Com este texto, e falando mal dela, realiza a tentativa de um desmonte de sua personalidade, pondo diante de lentes de aumento seus defeitos. Defeitos que, diga-se de passagem, não vão muito além do que temos relatado de outras  poetas e musicistas, e até de pessoas comuns, como a invariável tentativa de esconder a idade, ou a reclusão, quando os anos vão chegando.

Extraído do Archivo Literario de La Biblioteca Nacional, Colección  Juana de Ibarbourou, os dados utilizados por S. R. (prefiro não citar por extenso o nome da autora do texto) são sutilmente manipulados de modo a colocar em destaque sua vaidade feminina: a própria capa é uma foto de 1930, quando já era reconhecida como Poeta das Américas. O reconhecimento foi  no ano de 1929. Nesta foto, ela apagou o próprio rosto, e escreveu:” Em mi escritório de La casa Calle Comercio nº 318. Ano 1930. La cara quedo muy mal, pero el vestido es precioso”. Ao expor um rosto sem fisionomia, o sutil veneno que permeia todo o texto já começa a escorrer e a tentar corroer o que deveria ser uma biografia mais isenta. Para a qual, inclusive, nem há bibliografia.  E a primeira coisa que sugere, para mim, pelo menos, é que uma pessoa nunca deve biografar alguém a quem detesta com tanta veemência.

Entretanto, a poesia de Juana de Ibarbourou continua a correr mundo como uma das vozes mais brilhantes e representativas da poesia américo-hispânica. Dela disse em 1964 Carmen Conde, poeta e crítica espanhola e estudiosa das americanas de língua espanhola:”Juana é a representação lírica da linguagem do amor, da radiante felicidade do corpo enamorado, da assombrosa glória do espírito em amor total”. Ou seja, de uma modernidade sem igual. Lembremo-nos que só agora as mulheres podem exercer e cantar o próprio amor carnal, o que, na juventude da poetisa, nem era aceitável, ou começava a sê-lo.

Entretanto, tanta energia positiva e tanto reconhecimento não merecem de alguns de seus compatriotas o louvor que ela merece. E creio que se pode explicar esta atitude, de uma forma, no momento, apenas impressionista. São as oposições em que nos colocamos no dia a dia, no decorrer, às vezes, de toda a vida. Em relação ao público e ao privado, dilema em que oscilam tantos gestos, e para muitas pessoas uma oposição tão difícil de distinguir. Por outro lado, outro dilema, no qual é preciso estar atento, pela presença tão constante na política,  a oposição entre o que é direito civil, de pessoas em exercício de sua cidadania, garantido por um estado laico – no Brasil, desde a Proclamação da República -- mas que representantes de grupos religiosos teimam em confundir com os dogmas de suas próprias crenças. Um exemplo claro é o casamento entre homossexuais e a própria defesa, em desconsideração com a ciência e com os estudiosos isentos do assunto, da chamada “cura gay”.

Em Juana de Ibarbourou não encontram seus detratores nenhum caso escandaloso a apontar, nenhum embuste financeiro, nada, enfim, que a desabonasse como pessoa em seus 87 anos de existência. É a pura e simples manipulação em favor de uma outra poetisa uruguaia, também boa poetisa, mas que não tem o mesmo ímpeto criador, uma pessoa sofrida e resignada, solitária e triste:  Maria Eugenia Vaz Ferreira (1875-1924). Em sequência à biografia de Juana de Ibarbourou, veio outra do mesmo livro, de R.S., um pouco maior (p. 197 a 221), esta sim, com bibliografia respeitável.

Como já me foi dito pessoalmente, e mais de uma vez, eu deveria gostar mais de Maria Eugenia (como poeta) porque ela era uma pessoa melhor. Lembro-me de, uma vez, e em presença de uma amiga, ter respondido que não fazia julgamento de valores morais, que isto está fora do âmbito de meus interesses. Se um poeta, romancista, pintor ou músico é um verdadeiro artista, isto é que realmente pesa no julgamento de sua obra. A oposição qualidade artística/qualidade moral é despropositada.

O que me parece mais triste, mas é oportuno lembrar,  neste momento em que celebramos as conquistas das mulheres, é que talvez esse tipo de atitude seja mais comum do que parece. O que nos dá o direito de colocar em dúvida os critérios de avaliação literária, artística ou musical, em muitas circunstâncias em que não podemos conhecer a obra em si.

E é mais triste ainda pensar que louvar “virtudes”, para muitas pessoas, é mais importante  que louvar “ talentos”. É uma pena, porque as virtudes vivem e morrem com  as pessoas; o talento, desde que possa vir a público, e receber o necessário reconhecimento, passa incorporar a cultura e a história de uma época.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

CENTRO DE MÚSICA BRASILEIRA - CONHEÇA, ADMIRE, PRESTIGIE



O Brasil, país tão acolhedor “para o estrangeiro amigo”, como escreveu Manuel Bandeira, tem sua própria música como assunto para turista – e trata seus músicos que defendem a música erudita do país como cultores de curiosidades. Então, o que podem fazer os que amam e admiram a nossa música  e se identificam com ela?

Pois temos em São Paulo uma ilha, pequena mas muito importante, onde a música brasileira é tratada como verdadeira dona e senhora. Trata-se do Centro de Música Brasileira, sociedade civil sem fins lucrativos, que foi fundada em São Paulo pelo Professor e Compositor Osvaldo Lacerda e sua esposa, a Pianista Eudóxia de Barros. O ato de fundação foi em dezembro de 1984 (vai completar 30 anos, portanto) e iniciou suas atividades em abril de 1985, com recital de Eudóxia de Barros no Teatro Cultura Artística.

Para poder visualizar a importância e o destaque que se dá à música brasileira, consultamos o  blog do Centro de Música Brasileira e fizemos um equacionamento das apresentações nele relacionadas, correspondentes aos anos de 2012 e 2013. Nessa época o Presidente da entidade, desde sua fundação, Prof. Osvaldo Lacerda,  havia falecido. Chegamos aos seguintes resultados:

Em 2012/2013 os compositores apresentados foram Osvaldo Lacerda, Breno Blauth, Dimitri Cervo, Fabio Leal, Lina Pires de Campos, Liduíno Pitombeira, Oscar Lorenzo-Fernandez, Francisco Mignone, Henrique Oswald, Almeida Prado, Camargo Guarnieri,  Nilcéia Baroncelli, Pedro Camin, Dierson Torres, José Lino Flemming, José Siqueira, Fernando Cupertino (atual Vice-Presidente da entidade), Edino Krieger, Edmundo Villani Côrtes, Matheus Bitondi, Mario Ficarelli, Alberto Nepomuceno, Ernani Aguiar, Heitor Villa-Lobos, Ernst Mahle, Gilberto Mendes, Silvio Ferraz, Ronaldo Miranda, Radamés Gnatalli, Pedro Cameron, Eunice Catunda, Sophia Helena Veiga de Oliveira, Sergio Oliveira de  Vasconcellos-Correa, Felix Otero, Waldemar Henrique, Marcus Siqueira, Nilson Lombardi, Ernesto Nazareth, Maria Amélia de Souza Queiroz, João Francisco Leal, Marcos Portugal, Pe. José Maurício, Jayme Ovalle, Chiquinha Gonzaga, Inácio da Silva, Gabriel Trindade, um anônimo, Reginaldo Carvalho, Pedro Marinho, Eli-Eri Moura, José Alberto Kaplan, Gazzi de Sá, Vladimir Silva, Antonio Ribeiro, Ailton Escobar.

Comentando de forma muito breve esses compositores, vemos que muitos são contemporâneos  e estão em franca atividade; outros vêm do Brasil Colônia, do Brasil Império;  outros são já do século XX, mas estão falecidos. Desses 56 nomes, 6 são mulheres – uma raridade em  apresentações  de música brasileira. 

Já que os meios de expressão apresentados são também muito variados, vejamos os poetas contemplados nos recitais de/ou canto e piano, em 2012 e 2013: Paulo Bonfim, Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Ribeiro Couto, Ferreira Gullar, Manuel João Monteiro, Alphonsus de Guimaraens,  Olavo Bilac, Martins d’Alvarez, E. Freitas Guimarães, Vicente de Carvalho, Cecília Meireles, Renato Lacerda (pai de Osvaldo Lacerda), Mário de Andrade, Mário Quintana, A. de Campos, Ascenso Ferreira, Zé da Luz.  

Dos vinte e dois poetas apresentados, muitos aparecem mais de uma vez. E a época de seu florescimento corresponde mais ou menos às mesmas épocas dos autores de parte musical.  Não é demais observar que  a programação dos 2 anos comentados traçam um mapa sonoro e literário do Brasil, em diversas épocas.

Alguns compositores aqui citados foram alvo de apresentações em sua homenagem, como Osvaldo Lacerda e Almeida Prado, ambos, no caso, recentemente falecidos. Já o recital de 23.3.2012 foi em homenagem à cantora e professora Magdalena Lébeis (1912-1984) em seu centenário de nascimento. Neste recital, o poeta Paulo Bonfim, sobrinho da homenageada e autor de um dos textos cantados, esteve presente e disse lindas palavras sobre sua tia e a música.

Os intérpretes que se apresentaram nesses recitais, e em anos anteriores também, são em grande número, e, embora o piano esteja presente em quase todas as apresentações, a Orquestra de Cordas Laetare, sob regência de Muriel Waldman,  o Coral da  Cultura Inglesa, sob regência de Marcos Júlio Sergl, o Coro de Câmara de Campina Grande e a Camerata Cantareira também marcaram presença nesse biênio. Os duos de piano com os sopros flauta, oboé e clarineta  e os arcos violino e contrabaixo foram bem representados em alguns eventos.

Vale destacar a apresentação dos alunos da Escola de Música de São Paulo, que em 2012 homenagearam Osvaldo Lacerda, e no primeiro recital de 2013, dele apresentaram obras para piano solo, clarinete, canto e piano, flauta, trombeta, marimba, percussão e quinteto de metais. 

Procurei valorizar a variedade de autores de música e de poesia, para destacar o  grande número de criadores e intérpretes que constituem a nossa música, que em sua essência é muito variada. Nestas apresentações – e lembremo-nos que estamos falando de apenas dois anos de recitais – essa grande variedade ficou bem explícita.  Para quem gosta de música brasileira, este já é um painel muito representativo. Até porque muito do que foi apresentado não existe em gravações ou, quando existe, está em produções independentes, que  não são de fácil acesso.

Mas como o Centro de Música Brasileira já vai completar trinta anos, podemos multiplicar por quinze este número de  autores e poetas e ter o cálculo de tudo o que tem sido feito pela músicacita e, para quem gosta de mpl anos de recitais - essa no e, marimba, percusscentemente falecidos. reu, Goçalves Dias, th,Maria do Brasil nesse período. 

Se no item “música ao vivo” temos tudo isso que foi mencionado, e os recitais não aconteceram só em São Paulo, vejamos  quanto mais foi realizado neste período: sete concursos de interpretação da música brasileira, sendo sete para canções de câmara, cinco de música brasileira para piano e dois de músicas brasileiras para flauta. Alguns desses concursos receberam apoio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, que ofereceram os prêmios.  Em 2008 a entidade realizou um Concurso de Tocata para Piano, com prêmio em dinheiro oferecido pela mesma Secretaria de Cultura, e a obra premiada foi impressa pela Academia Brasileira de Música.Houve  ainda um Concurso de Monografia “O Dobrado” e , em seus primeiros anos de existência, um concurso de composições musicais, em parceria com a Biblioteca Mário de Andrade.

Apesar de sua visível utilidade pública, o Centro de Música Brasileira “não conta com subsídios de entidade nem particulares, nem governamentais, com exceção de esporádicos patrocínios  dos prêmios dos concursos ou apoios culturais”, como diz  seu release. A sobrevivência financeira se dá através de anuidades de associados,  e, além de outros patrocínios esporádicos, de grandes empresas, desde 1995 recebe apoio contínuo da Cultura Inglesa de São Paulo, em cujos auditórios realiza seus recitais.

No Brasil a cultura, infelizmente, é como os cometas: chegam, mas não ficam muito,  vão embora e demoram a voltar. Vamos então fazer um movimento para manter o Centro de Música Brasileira com todo seu brilho, contribuindo ao se associar a ele, mas também comparecendo a seus recitais. A música clássica (ou erudita) brasileira merece ser usufruída  - ela alimenta os ouvidos, a alma e o coração.

P.S -  Visite  www.centrodemusicabrasileira.blogspot.com.br  para conhecer em detalhes a programação aqui mencionada. Pelo e.mail cmbrasileira@gmail.com você pode obter mais informações sobre a programação mensal e se associar ao Centro de Música Brasileira.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

AOS MÉDICOS DO BRASIL, UMA MENSAGEM DE NATAL!



Nunca pensei que algum dia escreveria me dirigindo aos médicos, mas eis que este é um momento propício.
O novo milênio começou há apenas treze anos. Diante dessa percepção de algo tão novo, parece que mesmo a realidade de um passado recente, é algo muito distante. Há todo um marketing do futuro, um futuro só de tecnologias, superposto a um marketing do esquecimento e desprezo às conquistas difíceis e sofridas do passado.
Por isso me dirijo hoje aos médicos. Dentro desse contexto hostil ao passado, que permeia o ensino em geral, é bem possível que nenhum dos formandos em medicina, dos últimos dez anos, saiba quem foi, por exemplo, Albert Schweitzer.
Conheço muito mais o Albert Schweitzer músico e musicólogo que o Dr. Albert Schweitzer médico, mas o admiro igualmente pelas duas atividades. Pois o grande e reconhecido músico que ele era achou não ser suficiente tudo o que fez pela música, pela filosofia, pela teologia, assuntos de seu pleno domínio e, aos trinta anos foi estudar medicina na mesma universidade onde já era professor.
Formado, partiu para a África, instalando-se no Gabão, antiga colônia francesa, acompanhado da esposa, que além dos cursos de arte em que já era professora, cursou enfermagem para ajudá-lo. Apesar de quase não ter aparelhos, pois muitos não existiam, de não entender a língua nativa dos africanos, tinha sensibilidade, tinha bom-senso e, sobretudo, amava os seres vivos. E não os diminuía por serem menos favorecidos que ele próprio.
Periodicamente voltava à Europa, para dar concertos, fazer conferências sobre Bach e publicar seus livros, com a renda dos quais mantinha boa parte de seu trabalho no Gabão. Conseguiu inspirar gerações de médicos que compreenderam o fundamento da profissão que escolheram e buscaram exercê-la tão plenamente quanto ele.
Albert Schweitzer, nascido em 1875 e falecido em 1965, ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1952. Seu exemplo de dignidade, seu conhecimento filosófico e teológico e principalmente sua prática de amor ao próximo e respeito à vida (que o fazia cuidar também dos animais) iluminaram muitas gerações.
Todos os formandos dos últimos dez anos sabem, certamente, quem foi Zilda Arns, e ouviram falar da Pastoral da Criança que, com soluções simples, como o soro caseiro, conseguiu diminuir a mortalidade infantil no Brasil e na América Latina. A Dra. Zilda Arns (1934-2010) foi indicada também, em 2006, ao Prêmio Nobel da Paz. Mas sua morte num terremoto no Haiti, país de extrema pobreza e condições geográficas adversas, e onde ela difundia os ensinamentos da Pastoral, a tornam nosso exemplo mais brilhante e significativo.
Há outros exemplos, como os Médicos sem Fronteiras, o antigo Projeto Rondon (que percorreu o Brasil). E há casos isolados de pessoas que abrem mão do conforto e benesses dos grandes centros para ajudar todos os que precisam, neste imenso Brasil, no qual só a desigualdade social é maior que seus contrastes físicos.
Para os que argumentam com a falta de infra-estrutura para o exercício da medicina, mas também não a cobram nem a solicitam, vou contar uma história que aconteceu comigo, na adolescência.
Dos doze para os treze anos, fui gradativamente perdendo não a capacidade de ver, mas a capacidade de distinguir o que via. As imagens se tornaram cada vez menos nítidas, de modo que, mesmo sentando na primeira fila na escola, eu não conseguia enxergar o que estava escrito na lousa. Isto aconteceu num período de tempo muito curto, menos de um mês, e logo fui encaminhada a um oftalmologista, que diagnosticou quatro graus de miopia.
Cerca de um ano depois fomos a Alagoas, terra de meu pai e, em visita aos muitos conhecidos da região (Tingui, município de Água Branca), chegamos à casa de um casal cuja esposa era, diziam todos, “cega”.
Não sei se alguém falou da minha miopia, mas num dado momento, a “cega” chegou perto de mim e perguntou se poderia colocar os meus óculos.
Deixei.
Então, para surpresa de todos, ela começou a rir alto, de alegria. Ora da janela, ora da porta, ela apontava, de um lado, a árvore, da qual tinha se esquecido; de outro, um telhado lá ao longe, de uma casa que ela não sabia que havia sido construída... Ela olhou a própria sala de sua casa com surpresa, descobriu pequenas coisas que não via. Olhou seu próprio rosto no espelho, e passou a mão pelas faces, pelos cabelos, descobrindo, descobrindo, descobrindo...
Mas lá não havia médicos...
Quantos casos simples de resolver teriam diminuído o sofrimento e o desconforto de tantas pessoas, com mais boa vontade de parte dos governantes e dos próprios médicos? Este fato que narrei aconteceu nos anos sessenta. E de lá para cá, não obstante a entrada, no país, de inúmeros aparelhos capazes de diagnósticos precisos, não obstante o número de faculdades de medicina ter aumentado muito, o problema da Saúde em geral continua o mesmo, ou piorou.
O atendimento médico às classes menos favorecidas nos grandes centros ou nos longínquos cantões do país não difere muito. Portanto, se o esforço no sentido de melhorar esse atendimento se dirigiu para estrangeiros, esgotadas as possibilidades de contratação de médicos brasileiros, não aceitem o fato, se não quiserem – mas não censurem ou se oponham aos médicos que vieram. Não esqueçam – sobretudo os que cursaram Medicina em universidades públicas – que os seus anos de estudo foram custeados com os impostos destes sofridos, tão sofridos brasileiros pobres ou miseráveis, das periferias ou dos vilarejos.
Não argumentem, por favor, que os médicos cubanos representam “trabalho escravo” porque repassam a maior parte de seus salários ao governo de seu país. Quando armarem suas árvores de Natal, com enfeites chineses cheios de brilho e distribuírem presentes “xing-ling”, tão modernos e tão baratos, perguntem se não é o trabalho infinitamente mal remunerado, aviltante, que faz o preço de tudo isso ser tão irrisório. Perguntem o que abaixa o custo dos produtos a níveis quase impossíveis.
E sob uma estrela de plástico cheia de glitter, peçam “paz na terra aos homens de boa vontade”.
De boa vontade.


  

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

ISRAEL DE ALMEIDA, CORAÇÃO DE SETE CORDAS


No dia 21 de outubro de 2013, Israel Bueno de Almeida, violonista do grupo Izaías e seus Chorões e de muitos outros grupos que fizeram a glória do choro em São Paulo, completou 70 anos. Mandei um e.mail com votos de felicidades, e ele me respondeu com a modéstia lacônica de sempre.

Israel fala pouco, mas é capaz de surpreender com achados verbais sempre adequados, onde não falta um toque espirituoso, quase irônico. Mas acredito que isso seja apenas entre pessoas com as quais mantém um contato mais próximo, pois geralmente, em público, fala pouco. O que me proporcionou a oportunidade de conhecer esse traço pessoal foi o fato de termos trabalhado juntos durante quinze anos, tempo em que implementei um projeto de reestruturação do Arquivo Artístico do Teatro Municipal (que é um arquivo de partituras para uso dos Corpos Estáveis do Teatro).

         Grande conhecedor de música em teoria e, na prática, de música popular, Israel é irmão e parceiro musical de Izaías Bueno de Almeida, bandolinista histórico de São Paulo. Izaías também trabalhou no Arquivo, por menos tempo que o irmão, mas o suficiente para eu poder observar e até traçar um perfil psicológico de ambos. Izaías é loquaz, brincalhão, comunicativo – e faz muito bem o papel de mestre de cerimônias quando o grupo se apresenta. É músico com perfil de solista, enquanto Israel faz a base harmônica, sempre criativa, desenhando baixos surpreendentes e suas correspondentes harmonias. Estas características musicais se manifestam também nas composições de ambos, onde a linha das músicas de Izaías revela sua vocação de melodista, que se destaca em sua harmonia muito rica e bem tradicional. Já a harmonia visivelmente elaborada de Israel completa desenhos melódicos originais e de caráter jazzístico.

         Ao assumir a chefia do Arquivo, verifiquei que os dados biográficos dos músicos contratados precisavam de uma redação mais completa, mostrando melhor a trajetória de cada um. Como já conhecia um pouco todos eles, sabia que Israel tinha tocado no Show do Dia 7, programa de muito sucesso na Rede Record, nos anos 60, e também no lendário O Fino da Bossa, acompanhando Elis Regina e Jair Rodrigues, na mesma época.

Ao reescrever os currículos, começou a difícil missão de fazê-lo lembrar das suas principais realizações musicais, inclusive os muitos discos de que participou. Não acho que Israel quisesse esconder seus trabalhos: parece mais que estava sempre voltado para o futuro, para as coisas que viria a fazer. E tudo isso, aliás, era sempre uma retomada do passado mais brilhante do choro, tradição que o conjunto Izaías e seus Chorões mantêm até hoje. Sua modéstia, acho, deriva da posição de quem faz questão de compartilhar um tesouro com as gerações atuais. E que se coloca como agente dessa tradição, deixando de lado sua própria individualidade e seu papel nesse trajeto.

Começando com o cavaquinho harmônico, Israel passou para o violão tradicional, e dele para o violão de 7 cordas. Aos 17 anos, por indicação de seu mestre (acho que Antonio D’Auria) foi atuar como violonista em regional de uma Rádio, pois era a época em que os regionais passavam a substituir as grandes orquestras, que caracterizam a música ao vivo nas rádios nos anos quarenta e cinqüenta. Não muito mais tarde, já se destacava como violonista (isto não foi ele quem contou). Depois do período em que a MPB atingiu seu auge, atuou no Conjunto Atlântico (anos 70) e esteve morando no Rio de Janeiro, tocando no Cassino da Urca. Quando seu pai morreu, voltou a São Paulo e passou a tocar mais regularmente com o irmão, embora continuasse tocando em gravações.

Nos anos oitenta, por insistência de Cristina Azuma, violonista brasileira radicada na França, participou de um concurso na Martinica. E ganhou o primeiro prêmio com sua belíssima composição Frio e chuva, que essa violonista interpretou. Esta e outras seis músicas suas são atualmente representadas na França pela Editora Henri Lemoine.

         Comecei falando de seu laconismo e de sua verve irônica e espirituosa.

Pois vou terminar assim também.

Ao concluir o curso superior em música, no Dramático e Musical de São Paulo, Israel recebeu como proposta para o TCC (trabalho de conclusão de curso) a composição de uma peça musical. Contou ele que o Professor disse: “E você, escreva alguma coisa”. Ele escreveu uma peça orquestral. O nome? “Alguma coisa”.

Lembro ainda que um dia Israel chegou ao Arquivo contando que, no ônibus, uma moça que queria passar lhe deu um empurrão, dizendo: “Sai pra lá, velho!” Isto porque tem os cabelos completamente brancos desde seus vinte anos.

         Mas a resposta dele foi rápida: “Velho? Ah, se você tiver sorte, vai ficar velha também!”