Este é o título de um “drama bernesco per musica di Polisseno Fegejo Pastor Arcade (Carlo Goldoni) e Baldassare Galuppi, detto Il Buranello”, que Gian Giuseppe Bernardi comenta na revista Musica d´Oggi, ano XVI, nr 6, junho de 1934, p.206-209.
A parceria entre Carlo Goldoni, poeta, e Baldassare Galuppi, músico, começou em Veneza, em 1740, com a produção de óperas sérias. Depois Goldoni viajou por outros reinos italianos, retornando a Veneza em 1758, com a companhia Medebac. O trabalho conjunto da dupla recomeçou no ano teatral de 1750, com quatro óperas, entre as quais Il mondo alla roversa, ópera bufa. Esta é uma comédia satírica, arguta, na qual eles miram o predomínio das mulheres na vida social da época.
O argumento é mais ou menos o seguinte: em uma ilha dos antípodas, as mulheres fundam um reino matriarcal, onde os homens são escravos sem correntes, escravos voluntários do amor,e cuidam da horta, da cozinha, da roca etc. Servem também de animais atrelados ao carro triunfal das rainhas. Estas têm, cada qual, seu escravo predileto: Cinzia, Giacintino; Tullia, Rinaldino; Aurora, Graziosino.
Por motivo de ciúmes, surge a idéia de mudar a forma de governo para monarquia, com uma só rainha absoluta. Enquanto se organizam as eleições, chega à ilha uma barca de novos escravos, entre os quais Ferramonte, que vem com a finalidade de envergonhar os “profanadores do decoro” e induzi-los a retomar a “qualidade natural de patrões”. Assim, cada rainha cede sua parte de comando a seu favorito, dizendo: “Pietà, pietà di noi – Voi siete tanti eroi”, e o coro responde: “Le donne che comandano / è Il mondo Allá roversa / Che mai non durerà”.
A ópera segue a forma tradicional, e a música sempre se adapta à ação. O exemplo mais significativo está na ária de Graziosino, namorado de Aurora, que é encarregado por esta de derrubar a odiada rival, Cinzia, recebendo para isto uma espada. Mas Graziosino é um homenzinho tímido, e Cinzia, uma mulher feroz. Que situação difícil! Desobedecer Aurora ou enfrentar Cinzia? A ária demonstra às mil maravilhas o cômico contraste entre os dois medos que se enfrentam no ânimo do Herói. Este, depois de consultar-se longamente, toma a decisão:“Io mostrerò bravura / Sintanto che potro / Ma quando avrò paura / Allora fuggirò...”
Não menos interessante é a edulcorada declaração de amor de Aurora a Graziosino, toda de trilos e grupetos. Aliás, a tessitura das vozes, os excessivos vocalizes, trilos, mordentes e grupetos, como a música da época exigia, faz eriçar os cabelos dos cantores de nosso tempo.
Il mondo alla roversa é uma bela ópera, que mereceu o sucesso obtido: estreou no Teatro San Cassiano em 1750, foi reprisada no Teatro San Samuel no carnaval de 1753 e depois teve récitas em Milão, Turim, Cittadella, Dresden, Hamburgo, Modena, Bolonha, Bassano e Mônaco.
Mas hoje em dia...diante de Dilmas, Angelas, Cristinas e outras, alguém ainda ousaria dizer que, com as mulheres no comando, o mundo está de pernas para o ar?
Este espaço se propõe principalmente a comentar as relações entre música e outras artes.
sábado, 7 de janeiro de 2012
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
JOÃO BATISTA JULIÃO - Um Mestre que merece ser lembrado
Em 1986, o Boletim nr 3 da Sociedade Brasileira de Musicologia publicou trabalhos a propósito do centenário de nascimento do ilustre mestre paulista,João Batista Julião, figura importante no cenário musical brasileiro.
As notícias biográficas a seu respeito, constantes do Boletim mencionado, foram disponibilizadas por sua filha, Profa. Maria de Lourdes Julião, a partir de um manuscrito provavelmente de seu próprio punho. Segundo essas Notícias Biográficas, João Batista Julião nasceu no dia 1º. de setembro de 1886, em Silveiras, SP, onde cursou as primeiras letras e aprendeu a tocar diversos instrumentos na banda da cidade. Em 1904 mudou-se para Moji das Cruzes,e logo tornou-se regente da Corporação Musical União Mojiana. Na mesma época, e já casado com a Sra. Profa. Maria de Lourdes Freitas, escreveu revistas, dedicou-se ao coro da Igreja Matriz e produziu muitas obras para banda.
Em 1914 matriculou-se no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde graduou-se em Contraponto e Fuga em 1918. Ao mesmo tempo, estudou particularmente com o Maestro Savino De Benedictis, com o qual manteve por toda a vida uma grande amizade, tornando-se em 1924 padrinho de batismo de Lydia, filha do casal Savino / Carmelita.
Em 1915 fundou um instituto musical em Moji das Cruzes e em 1918, mediante concurso, foi nomeado mestre de capela da Matriz, cargo que exerceu até 1926. Nesse ínterim, foi professor de música da Penitenciária Modelo do Estado, na Escola Normal Padre Anchieta e outros estabelecimentos de ensino. Em 1927 fundou o Instituto Musical de São Paulo, que permaneceu dirigindo até 1961, quando faleceu.
Embora já tivesse realizado diversos trabalhos em relação ao Canto Orfeônico, em 1942, quando foi instalado no Rio de Janeiro o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, foi um de seus primeiros alunos, e com a habilitação necessária já recebida, anexou, em 1943,o Conservatório de Canto Orfeônico ao Instituto Musical de São Paulo. A partir de então, dedicou-se a preparar e orientar cursos para formação de professores de Canto Orfeônico no Estado de São Paulo, culminando com o cargo de Orientador-Chefe do Ensino de Canto Orfeônico neste estado, recebido em 1957.
João Batista Julião ocupou a cadeira nr 37 da Academia Brasileira de Música e exerceu inúmeros cargos de diretor e Presidente em entidades musicais. Foi também compositor e autor de inúmeras obras didáticas.
O cinqüentenário de seu falecimento, que se deu neste ano (1961-2011) vem encontrar o ensino da música nas escolas em uma situação caótica, pois que a lei determina a criação dos cursos sem que haja professores especializados. Rever os programas e as obras criados especialmente para a mesma finalidade pode e deveria ser um caminho, pois que seguiam metodologia que deu bons resultados em seu tempo. E esse tempo não é tanto assim que se possa considerá-los superados – ainda mais que, nesse vácuo, não surgiram mestres como João Batista Julião e seus contemporâneos...
As notícias biográficas a seu respeito, constantes do Boletim mencionado, foram disponibilizadas por sua filha, Profa. Maria de Lourdes Julião, a partir de um manuscrito provavelmente de seu próprio punho. Segundo essas Notícias Biográficas, João Batista Julião nasceu no dia 1º. de setembro de 1886, em Silveiras, SP, onde cursou as primeiras letras e aprendeu a tocar diversos instrumentos na banda da cidade. Em 1904 mudou-se para Moji das Cruzes,e logo tornou-se regente da Corporação Musical União Mojiana. Na mesma época, e já casado com a Sra. Profa. Maria de Lourdes Freitas, escreveu revistas, dedicou-se ao coro da Igreja Matriz e produziu muitas obras para banda.
Em 1914 matriculou-se no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde graduou-se em Contraponto e Fuga em 1918. Ao mesmo tempo, estudou particularmente com o Maestro Savino De Benedictis, com o qual manteve por toda a vida uma grande amizade, tornando-se em 1924 padrinho de batismo de Lydia, filha do casal Savino / Carmelita.
Em 1915 fundou um instituto musical em Moji das Cruzes e em 1918, mediante concurso, foi nomeado mestre de capela da Matriz, cargo que exerceu até 1926. Nesse ínterim, foi professor de música da Penitenciária Modelo do Estado, na Escola Normal Padre Anchieta e outros estabelecimentos de ensino. Em 1927 fundou o Instituto Musical de São Paulo, que permaneceu dirigindo até 1961, quando faleceu.
Embora já tivesse realizado diversos trabalhos em relação ao Canto Orfeônico, em 1942, quando foi instalado no Rio de Janeiro o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, foi um de seus primeiros alunos, e com a habilitação necessária já recebida, anexou, em 1943,o Conservatório de Canto Orfeônico ao Instituto Musical de São Paulo. A partir de então, dedicou-se a preparar e orientar cursos para formação de professores de Canto Orfeônico no Estado de São Paulo, culminando com o cargo de Orientador-Chefe do Ensino de Canto Orfeônico neste estado, recebido em 1957.
João Batista Julião ocupou a cadeira nr 37 da Academia Brasileira de Música e exerceu inúmeros cargos de diretor e Presidente em entidades musicais. Foi também compositor e autor de inúmeras obras didáticas.
O cinqüentenário de seu falecimento, que se deu neste ano (1961-2011) vem encontrar o ensino da música nas escolas em uma situação caótica, pois que a lei determina a criação dos cursos sem que haja professores especializados. Rever os programas e as obras criados especialmente para a mesma finalidade pode e deveria ser um caminho, pois que seguiam metodologia que deu bons resultados em seu tempo. E esse tempo não é tanto assim que se possa considerá-los superados – ainda mais que, nesse vácuo, não surgiram mestres como João Batista Julião e seus contemporâneos...
terça-feira, 29 de novembro de 2011
AO NORTE DO HORIZONTE - O EXÍLIO COMO TEMA LITERÁRIO
AO NORTE DO HORIZONTE, romance de Branca Ferrari (São Paulo, Biblos Editora, 2011) retoma um tema que vem sendo visitado há cerca de quarenta anos e que parece estar longe de se extinguir: o de uma juventude que tem o futuro despedaçado por ditaduras e repressão policial. Neste caso, é uma juventude que se reúne em Paris, dedica-se aos estudos universitários e ao mesmo tempo tenta socorrer as vítimas de seus países.
O pano de fundo de toda a ação é o romance entre uma brasileira e um alemão.Este, se não se mostra decididamente de esquerda, é pelo menos um elemento de resistência ao nazismo que, de forma aberta ou disfarçada, tenta se instaurar novamente em seu país. A narrativa é toda feita em primeira pessoa - do ponto de vista de Vivi, a brasileira - mas a inserção recorrente de várias vozes, de vários personagens, em discurso direto, atenua esta visão e não deixa que ela seja monopolizadora.
A narrativa principal é alternada por diversas outras secundárias, não menos interessantes, como história de Maria Amélia e Luiz, e a de José Maria, um travesti brasileiro, que salva um perseguido da polícia simplesmente transformando-o também em um travesti. Como se vê, o tom geral da narrativa está longe de ser depressivo e até culmina em um final feliz, o que, na vida real, nem sempre foi assim.
Não é no que está escrito, entretanto, que a autora denota sua vivência de militante, mas em certas ausências: os personagens principais, por exemplo, têm nome, mas não sobrenome. Fica para o leitor decidir se aquele prenome é ou não um codinome. A própria narradora, por exemplo, é, durante todo o romance, apenas Vivi ...
Um outro indício da militância está num elemento que coloca a esquerda em um plano altamente romântico: o número de poemas, em espanhol, italiano ou francês, que em diversos momentos, felizes ou infelizes, os personagens declamam. No Brasil, era a música popular esse elemento catalizador de ações. E ainda a infindável sede de leitura de Vivi, a livraria e editora de seu namorado, que revelam o comprometimento teórico da esquerda, embora em nenhum momento os autores dos livros lidos pelos personagens sejam citados.
É altamente positivo que se mantenha o tom de toda a narrativa, pois ele aponta para uma superação de antiga dores e a aceitação das cicatrizes antigas. Talvez seja essa a intenção de Branca Ferrari, na epígrafe escolhida: “Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um porto de partida” – Eduardo Galeano.
COMO ADQUIRIR: Através da
www.amazon.com/books (digitar o título em português)
O pano de fundo de toda a ação é o romance entre uma brasileira e um alemão.Este, se não se mostra decididamente de esquerda, é pelo menos um elemento de resistência ao nazismo que, de forma aberta ou disfarçada, tenta se instaurar novamente em seu país. A narrativa é toda feita em primeira pessoa - do ponto de vista de Vivi, a brasileira - mas a inserção recorrente de várias vozes, de vários personagens, em discurso direto, atenua esta visão e não deixa que ela seja monopolizadora.
A narrativa principal é alternada por diversas outras secundárias, não menos interessantes, como história de Maria Amélia e Luiz, e a de José Maria, um travesti brasileiro, que salva um perseguido da polícia simplesmente transformando-o também em um travesti. Como se vê, o tom geral da narrativa está longe de ser depressivo e até culmina em um final feliz, o que, na vida real, nem sempre foi assim.
Não é no que está escrito, entretanto, que a autora denota sua vivência de militante, mas em certas ausências: os personagens principais, por exemplo, têm nome, mas não sobrenome. Fica para o leitor decidir se aquele prenome é ou não um codinome. A própria narradora, por exemplo, é, durante todo o romance, apenas Vivi ...
Um outro indício da militância está num elemento que coloca a esquerda em um plano altamente romântico: o número de poemas, em espanhol, italiano ou francês, que em diversos momentos, felizes ou infelizes, os personagens declamam. No Brasil, era a música popular esse elemento catalizador de ações. E ainda a infindável sede de leitura de Vivi, a livraria e editora de seu namorado, que revelam o comprometimento teórico da esquerda, embora em nenhum momento os autores dos livros lidos pelos personagens sejam citados.
É altamente positivo que se mantenha o tom de toda a narrativa, pois ele aponta para uma superação de antiga dores e a aceitação das cicatrizes antigas. Talvez seja essa a intenção de Branca Ferrari, na epígrafe escolhida: “Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um porto de partida” – Eduardo Galeano.
COMO ADQUIRIR: Através da
www.amazon.com/books (digitar o título em português)
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
PROCURAÇÕES : SIM OU NÃO?
No Condomínio em que habito, vem sendo discutida com certa freqüência, nos últimos tempos, a possibilidade de reduzir o número de procurações para as Assembléias em que são votadas questões de maior ou menor relevância.
Pessoalmente discordo dessa limitação, que não consta nem da Convenção de Condomínio e que não é especificada pelo Código Civil, que legisla sobre a matéria.
A razão desta minha discordância é uma simples hipótese: o vislumbre da possibilidade de manipulação, por parte de grupos que queiram a tomar o poder ou que venham a tomá-lo. As restrições podem ser perigosas, em caso de má-fé, pela possibilidade de manipular os condôminos que em geral dão procurações.
Os condomínios cada vez mais têm população quase que flutuante, de modo que dificilmente podemos conhecer cada vizinho e, muito menos, reconhecer-lhe as qualidade morais e sua probidade como cidadão.
Em realidade, nem sempre as pessoas que delegam seu poder de voto a outrem o fazem por comodismo; as razões podem ser muitas, e vão desde uma opinião pouco clara a respeito de tópicos da pauta – caso em que o condômino delega seu voto a quem ele acha que está mais informado e o representa bem – até motivos de saúde.
Outra realidade que necessariamente deve ser levada em consideração é o envelhecimento da população. Muitos pessoas que não comparecem a reuniões de condomínio não ouvem bem, dormem muito cedo, enfim, têm uma vida restrita pela própria idade. Levá-los a confiar em quem não mereceria confiança pode ser muito fácil. E também muito perigoso, já que todas as manipulações, em geral, apontam para um ponto muito frágil da população: o próprio bolso.
E permitir manipulações em matéria que exige tanta seriedade, em uma economia muito incerta como a nossa, em que o desemprego é um fantasma e aposentadoria, quando há, é passível de altos e baixos, é expor-se a um alto risco – pois, uma vez criada a via da restrição às procurações, revertê-la ou extingui-la é quase impossível.
Pessoalmente discordo dessa limitação, que não consta nem da Convenção de Condomínio e que não é especificada pelo Código Civil, que legisla sobre a matéria.
A razão desta minha discordância é uma simples hipótese: o vislumbre da possibilidade de manipulação, por parte de grupos que queiram a tomar o poder ou que venham a tomá-lo. As restrições podem ser perigosas, em caso de má-fé, pela possibilidade de manipular os condôminos que em geral dão procurações.
Os condomínios cada vez mais têm população quase que flutuante, de modo que dificilmente podemos conhecer cada vizinho e, muito menos, reconhecer-lhe as qualidade morais e sua probidade como cidadão.
Em realidade, nem sempre as pessoas que delegam seu poder de voto a outrem o fazem por comodismo; as razões podem ser muitas, e vão desde uma opinião pouco clara a respeito de tópicos da pauta – caso em que o condômino delega seu voto a quem ele acha que está mais informado e o representa bem – até motivos de saúde.
Outra realidade que necessariamente deve ser levada em consideração é o envelhecimento da população. Muitos pessoas que não comparecem a reuniões de condomínio não ouvem bem, dormem muito cedo, enfim, têm uma vida restrita pela própria idade. Levá-los a confiar em quem não mereceria confiança pode ser muito fácil. E também muito perigoso, já que todas as manipulações, em geral, apontam para um ponto muito frágil da população: o próprio bolso.
E permitir manipulações em matéria que exige tanta seriedade, em uma economia muito incerta como a nossa, em que o desemprego é um fantasma e aposentadoria, quando há, é passível de altos e baixos, é expor-se a um alto risco – pois, uma vez criada a via da restrição às procurações, revertê-la ou extingui-la é quase impossível.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
100 ANOS DO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO
Algumas palavras sobre a Exposição
Durante quinze dias consecutivos, de 15 a 30 de outubro de 2011, obras de oito artistas plásticos estiveram expostas no Espaço Paulista de Arte. O mote comum era o Teatro Municipal de São Paulo, em seu centenário.
Certamente, as obras foram produzidas em separado, sem que os artistas “combinassem” entre si as abordagens que escolheram. Mas o resultado mostrou inegáveis ilações, não só pelo tema comum, como pela condução dos olhares de pessoas de formações diferentes, em relação a um ícone da cultura paulistana.
Roberto Rossant explorou o tema das máscaras e as silhuetas esbatidas de uma bailarina curvada em agradecimento, com outra bailarina ao fundo, visível apenas em parte. Segundo suas próprias palavras, com as máscaras, volta-se para a origem grega da arte cênica. Já Wagner Aniceto, que se diz um pintor de paisagens urbanas, colocou também bailarinas, flutuando entre a agressividade do concreto da grande cidade.
Marcelo Neves, escultor, deslocou sua Catherine, uma mulher muito gorda em passo de dança, da languidez e fluidez usual das bailarinas. Em outras esculturas, mulheres também obesas se divertem num balanço. Será um alerta para a aceitação da beleza em todas as suas formas? E Catherine, dotada de um mecanismo, gira e gira...
Ferracioli se auto-retrata como Dom Quixote. E entre dois Quixotes coloca uma cena de ópera de Wagner.
“Você acha que o artista, hoje em dia, é quixotesco?”, perguntei. E ele apenas sorriu. Mas não negou.
Marcus Claudio nos mostra, em branco e preto, o que também foi retratado em branco e preto: os anônimos construtores do edifício, em quase totalidade artesãos italianos vindos especialmente para a construção e que aqui ficaram. (Uma bisneta procurava, no quadro, o indício de quem seria seu antepassado...) E o artista recria a chegada, em carroças, dos pianos Pleyel, adquiridos especialmente para a nova casa de espetáculos.
Surpresa! Alguém finalmente lembrou-se do Patrono do Teatro, nosso grande Carlos Gomes. Foi Gladys Maldaun, que retratou de diversos ângulos o compositor e seus principais personagens, representados em esculturas que circundam as escadas que vão para o Vale do Anhangabaú. Preterido na inauguração e no centenário do Teatro Municipal de São Paulo, e freqüentemente na programação anual, Carlos Gomes, na estátua e também nos quadros, parece carregar um peso: “Por que não nasci num país estrangeiro? Seria reconhecido no Brasil!”
Avelino retrata o Teatro por fora, ao anoitecer, com suas luzes, seu esplendor em dias de chuva e em dias de espetáculo. A multidão segue apressada. Talvez vejam, talvez não vejam o Teatro. Pois Avelino sempre o vê, quando passa, todos os dias, vindo do trabalho para sua casa. E lamenta a deterioração de um entorno que deveria merecer mais respeito.
Já Alexandre Reider se fixa nos músicos e, mais particularmente, em um músico: o Maestro Jamil Maluf, regendo a Orquestra Experimental de Repertório, criada por ele há quase vinte anos.
Muitas das pessoas que compareceram à Vernissage, no dia 22 de outubro, permaneceram por mais tempo do que pretendiam, para ver o Maestro, que chegaria em breve. Porque a música de todos os tempos e todos os países está sempre revivida e renovada, na pessoa dos grandes artistas que ocupam o palco diante de nós e especialmente para nós, o público.
Durante quinze dias consecutivos, de 15 a 30 de outubro de 2011, obras de oito artistas plásticos estiveram expostas no Espaço Paulista de Arte. O mote comum era o Teatro Municipal de São Paulo, em seu centenário.
Certamente, as obras foram produzidas em separado, sem que os artistas “combinassem” entre si as abordagens que escolheram. Mas o resultado mostrou inegáveis ilações, não só pelo tema comum, como pela condução dos olhares de pessoas de formações diferentes, em relação a um ícone da cultura paulistana.
Roberto Rossant explorou o tema das máscaras e as silhuetas esbatidas de uma bailarina curvada em agradecimento, com outra bailarina ao fundo, visível apenas em parte. Segundo suas próprias palavras, com as máscaras, volta-se para a origem grega da arte cênica. Já Wagner Aniceto, que se diz um pintor de paisagens urbanas, colocou também bailarinas, flutuando entre a agressividade do concreto da grande cidade.
Marcelo Neves, escultor, deslocou sua Catherine, uma mulher muito gorda em passo de dança, da languidez e fluidez usual das bailarinas. Em outras esculturas, mulheres também obesas se divertem num balanço. Será um alerta para a aceitação da beleza em todas as suas formas? E Catherine, dotada de um mecanismo, gira e gira...
Ferracioli se auto-retrata como Dom Quixote. E entre dois Quixotes coloca uma cena de ópera de Wagner.
“Você acha que o artista, hoje em dia, é quixotesco?”, perguntei. E ele apenas sorriu. Mas não negou.
Marcus Claudio nos mostra, em branco e preto, o que também foi retratado em branco e preto: os anônimos construtores do edifício, em quase totalidade artesãos italianos vindos especialmente para a construção e que aqui ficaram. (Uma bisneta procurava, no quadro, o indício de quem seria seu antepassado...) E o artista recria a chegada, em carroças, dos pianos Pleyel, adquiridos especialmente para a nova casa de espetáculos.
Surpresa! Alguém finalmente lembrou-se do Patrono do Teatro, nosso grande Carlos Gomes. Foi Gladys Maldaun, que retratou de diversos ângulos o compositor e seus principais personagens, representados em esculturas que circundam as escadas que vão para o Vale do Anhangabaú. Preterido na inauguração e no centenário do Teatro Municipal de São Paulo, e freqüentemente na programação anual, Carlos Gomes, na estátua e também nos quadros, parece carregar um peso: “Por que não nasci num país estrangeiro? Seria reconhecido no Brasil!”
Avelino retrata o Teatro por fora, ao anoitecer, com suas luzes, seu esplendor em dias de chuva e em dias de espetáculo. A multidão segue apressada. Talvez vejam, talvez não vejam o Teatro. Pois Avelino sempre o vê, quando passa, todos os dias, vindo do trabalho para sua casa. E lamenta a deterioração de um entorno que deveria merecer mais respeito.
Já Alexandre Reider se fixa nos músicos e, mais particularmente, em um músico: o Maestro Jamil Maluf, regendo a Orquestra Experimental de Repertório, criada por ele há quase vinte anos.
Muitas das pessoas que compareceram à Vernissage, no dia 22 de outubro, permaneceram por mais tempo do que pretendiam, para ver o Maestro, que chegaria em breve. Porque a música de todos os tempos e todos os países está sempre revivida e renovada, na pessoa dos grandes artistas que ocupam o palco diante de nós e especialmente para nós, o público.
domingo, 16 de outubro de 2011
CENTENÁRIO DO TEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO - NOVOS OLHARES DE OUTROS ARTISTAS
O Espaço Paulista de Arte homenageia o Teatro Municipal de São Paulo em seu centenário, com uma exposição coletiva de artistas contemporâneos, em que “cada um representou, através de sua pintura, bailarinas e músicos que se reúnem em passeio entre os personagens esculpidos do jardim da praça do teatro”, conforme o convite.
São quadros – óleos e aquarelas – e esculturas, dos artistas Alexandre Reider, Avelino, Ferracioli, Gladys Maldaun, Marcelo Neves, Marcus Cláudio, Roberto Rossant e Wagner Aniceto. O teatro é visto através de cenas imaginadas, como a obra de Marcus Claudio com a chegada de pianos Pleyel, em carroças, supostamente na época da inauguração; cenas reais, como a escadaria que leva ao Vale do Anhangabaú, com suas esculturas: Carlos Gomes e seus personagens, por Gladys Maldaun; e, cena não só real, como também atual, do Maestro Jamil Maluf regendo a Orquestra Experimental de Repertório, e alguns de seus músicos, por Alexandre Reider. O prédio em si é lembrado por uma vista parcial de sua fachada, feita por Avelino. Outras obras são bailarinas, máscaras e até um Dom Quixote, de Ferracioli, que lembra o balé de mesmo nome.
O Teatro Municipal de São Paulo, “inaugurado em 12 de setembro de 1911, é considerado um dos ícones de nossa cidade. As reformas físicas e estruturais pelas quais passou a partir de 1952 procuraram dotá-lo de recursos técnicos e administrativos, deixando-o atualizado e inserido num circuito cada vez mais exigente para a realização de espetáculos. Agora, em 2011 - ano de seu centenário, está reformado com tecnologia de ponta, cuidadosamente restaurado e reformulado (...)”, informa Sergio Roberti de Nucci, em transcrição de trecho de seu livro inédito Teatro Municipal de São Paulo – A mágica interface de uma ribalta.
A Exposição em homenagem aos 100 anos do Teatro Municipal de São Paulo estará aberta ao público de 15 a 30 de outubro de 2011, de segunda a sábado, das 10h às 20h. Vernissage dia 22 de outubro de 2011, sábado, das 12h às 18h.
Espaço Paulista de Arte
Rua Francisco Leitão, 190/198, Pinheiros, São Paulo, SP
Fone (11) 3062-0653
www.espacopaulistadearte.com.br
São quadros – óleos e aquarelas – e esculturas, dos artistas Alexandre Reider, Avelino, Ferracioli, Gladys Maldaun, Marcelo Neves, Marcus Cláudio, Roberto Rossant e Wagner Aniceto. O teatro é visto através de cenas imaginadas, como a obra de Marcus Claudio com a chegada de pianos Pleyel, em carroças, supostamente na época da inauguração; cenas reais, como a escadaria que leva ao Vale do Anhangabaú, com suas esculturas: Carlos Gomes e seus personagens, por Gladys Maldaun; e, cena não só real, como também atual, do Maestro Jamil Maluf regendo a Orquestra Experimental de Repertório, e alguns de seus músicos, por Alexandre Reider. O prédio em si é lembrado por uma vista parcial de sua fachada, feita por Avelino. Outras obras são bailarinas, máscaras e até um Dom Quixote, de Ferracioli, que lembra o balé de mesmo nome.
O Teatro Municipal de São Paulo, “inaugurado em 12 de setembro de 1911, é considerado um dos ícones de nossa cidade. As reformas físicas e estruturais pelas quais passou a partir de 1952 procuraram dotá-lo de recursos técnicos e administrativos, deixando-o atualizado e inserido num circuito cada vez mais exigente para a realização de espetáculos. Agora, em 2011 - ano de seu centenário, está reformado com tecnologia de ponta, cuidadosamente restaurado e reformulado (...)”, informa Sergio Roberti de Nucci, em transcrição de trecho de seu livro inédito Teatro Municipal de São Paulo – A mágica interface de uma ribalta.
A Exposição em homenagem aos 100 anos do Teatro Municipal de São Paulo estará aberta ao público de 15 a 30 de outubro de 2011, de segunda a sábado, das 10h às 20h. Vernissage dia 22 de outubro de 2011, sábado, das 12h às 18h.
Espaço Paulista de Arte
Rua Francisco Leitão, 190/198, Pinheiros, São Paulo, SP
Fone (11) 3062-0653
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quinta-feira, 13 de outubro de 2011
CONTOS E CRÔNICAS DO BEXIGA
O bairro Bela Vista comemora neste mês de outubro os 133 anos, ao mesmo tempo em que o país comemora o início do Ano Brasil-Itália. Bairro paulistano famoso por sua população italiana, a Bela Vista – ou Bexiga – ganha como presente de aniversário uma leitura amena e gostosa: Momentos do Passado – Contos e Crônicas do Bexiga. O autor, Rodolpho Civile, nasceu, cresceu e manteve clínica médica no bairro, à Rua Maria José, quase esquina com a Rua Major Diogo. Hoje, aposentado, escreve “para preencher a velhice”...
Apesar de sumamente despretensioso, o Dr. Rodolpho pinta tipos humanos muito verdadeiros e fáceis de reconhecer: o barbeiro, o palhaço do circo, o colchoeiro, relojoeiros, as fofoqueiras (as alegres comadres do Bexiga)... Isto é, diversas profissões em extinção – exceto as fofoqueiras!
Nascido em 1925, graduado em Medicina em 1952 e exercendo a clínica médica durante 25 anos, Dr. Rodolpho presenciou inúmeras mudanças urbanísticas e humanas no bairro: ele se refere aos bondes diversas vezes, dá à atual Praça da Bandeira o nome de Largo do Piques, fala da favela Saracura, do Cine Rex, da Confital e do Hotel Danúbio etc. E cita muitas vezes a tradicional Escola de Samba Vai-vai e seus integrantes, bem como a Igreja de N. Sra. Achiropita, símbolos do bairro.
Quanto aos seres humanos, “procurei colocar no papel indivíduos com características de personalidade que se sobressaíam da coletividade e que me chamaram a atenção”, explica no 6º. capítulo, do total de 30.
Não obstante o fato de serem caracterizados como indivíduos de tempos passados, a uma observação mais próxima e diária podemos notar que, mudadas as exterioridades, em essência muitas daquelas pessoas simples, sobretudo os afro-descendentes, continuam circulando pelas ruas do Bexiga, com os mesmos problemas do passado: falta de oportunidades, pobreza crônica e tudo o que se transmite de geração a geração, entre os deserdados da divisão de riquezas.
Momentos do Passado – Contos e Crônicas do Bexiga é um livro que nos leva a fixar os olhos numa paisagem física e humana peculiar, que se perpetua em sua modéstia e desaparece diante do progresso aparente. Um progresso que não muda muito os fatos – apenas nos faz olhar para o que (supostamente) virá –, deixando de ver o que foi e que continua sendo, revestido de sua conveniente invisibilidade.
Este livro pode ser solicitado pelo cel. (11) 9540-4200, pelo preço de R$.30,00.
Apesar de sumamente despretensioso, o Dr. Rodolpho pinta tipos humanos muito verdadeiros e fáceis de reconhecer: o barbeiro, o palhaço do circo, o colchoeiro, relojoeiros, as fofoqueiras (as alegres comadres do Bexiga)... Isto é, diversas profissões em extinção – exceto as fofoqueiras!
Nascido em 1925, graduado em Medicina em 1952 e exercendo a clínica médica durante 25 anos, Dr. Rodolpho presenciou inúmeras mudanças urbanísticas e humanas no bairro: ele se refere aos bondes diversas vezes, dá à atual Praça da Bandeira o nome de Largo do Piques, fala da favela Saracura, do Cine Rex, da Confital e do Hotel Danúbio etc. E cita muitas vezes a tradicional Escola de Samba Vai-vai e seus integrantes, bem como a Igreja de N. Sra. Achiropita, símbolos do bairro.
Quanto aos seres humanos, “procurei colocar no papel indivíduos com características de personalidade que se sobressaíam da coletividade e que me chamaram a atenção”, explica no 6º. capítulo, do total de 30.
Não obstante o fato de serem caracterizados como indivíduos de tempos passados, a uma observação mais próxima e diária podemos notar que, mudadas as exterioridades, em essência muitas daquelas pessoas simples, sobretudo os afro-descendentes, continuam circulando pelas ruas do Bexiga, com os mesmos problemas do passado: falta de oportunidades, pobreza crônica e tudo o que se transmite de geração a geração, entre os deserdados da divisão de riquezas.
Momentos do Passado – Contos e Crônicas do Bexiga é um livro que nos leva a fixar os olhos numa paisagem física e humana peculiar, que se perpetua em sua modéstia e desaparece diante do progresso aparente. Um progresso que não muda muito os fatos – apenas nos faz olhar para o que (supostamente) virá –, deixando de ver o que foi e que continua sendo, revestido de sua conveniente invisibilidade.
Este livro pode ser solicitado pelo cel. (11) 9540-4200, pelo preço de R$.30,00.
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